Estranho Destino-Livro Completo, (Primeira Parte).




                                           Estranho Destino.

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                    Registro Nº: 699.825, Livro: 1.352, Folha: 32.
         
                                          Jaime D’Aquino

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                                          Copyright © by Jaime D’Aquino 2018.
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                  Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
                ____________________________________________________
           D´Aquino, Jaime.
           D223 Estranho destino / Jaime D´Aquino; -- Rio de Janeiro, RJ: ArteSam,
            2018.
                   180 páginas.
                                                   ISBN 978-85-5697-767-0
1.       Literatura brasileira.  2.   Romance.  I.  Título
                   869.3                                                                                         CDD:
                                                                                              _____________________________________________________________
                                            Ficha catalográfica elaborada por:
                     Débora Soares Vicente de Santana – Bibliotecária CRB-9/1914
                                           Índice para catálogo sistemático:
                       3.    Literatura brasileira                              B869
                       4.      Romance                                           B869.3

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                                           Apresentação.

A vida em toda a sua abrangência é repleta de mistérios das mais distintas naturezas, sobretudo os Espirituais. Alguns deles insinuam a se nos revelar através de sonhos, inspirações, presságios e das mais variáveis formas, contudo muitos despontam quais a impenetráveis códigos para quem não está possibilitado a decifrá-los.
Não raros, entretanto, apresentam-se travestidos de “milagres” por meios diversos, e surgem para nos auxiliar ou por um termo em sofrimentos supostamente sem fim.
São infrequentes às vezes nas quais sabemos as origens das periódicas ou constantes circunstâncias aflitivas que nos fazem padecer, seja de leve tristeza a intensas agonias.
Nas maiorias dos episódios malévolos que nos atingem supomos sermos injustiçados, vítimas de maldades gratuitas, de tramas de destinos perversos que parecem ter apenas nós como seus alvos prediletos. As dores morais e físicas ou ainda ambas simultaneamente, nas variáveis naturezas que possam existir, jamais nos acometem sem que haja alguma justa razão para isso. Elas são ordinariamente, frutos dos nossos equívocos e erros, já que somos os únicos responsáveis por tudo o que nos acontece.
Todas as irresponsabilidades cometidas no passado geram, irremediavelmente no presente, tormentos em diversos graus, creiam nisso ou não, pois não existem causas desprovidas de seus efeitos. Elas, contudo, guardam certas coerências entre si, embora nem sempre, haja vistas sabemos as incidências das que não seguem os parâmetros considerados normais.
No caso específico do tema que você lerá, neles, quando acontecem, posto que, não serem comuns suas ocorrências, raramente chegam às exposições públicas. São casos de caráter críticos e representam autênticas tragédias quando incide sobre partes de uma família.
Sem generalizar, grande maioria de membros das chamadas civilizações modernas, talvez entendessem, se tivessem conhecimento de fatos, na vida real, quais os ilustrados nas abordagens desta obra, como genuinamente bizarros e inadequados em todos os aspectos, pois se trata, próximo da totalidade dela, de relacionamentos amorosos entre irmãos consanguíneos.
Para os que assim consideram, seriam impiedosamente julgados como anômalos moralmente, fossem em quais conjunturas se apresentassem estes gêneros de vínculos. Para estes, os que não se adequarem as regras ou tradições das sociedades atual, principalmente nesta particularidade, dificilmente teria a compreensão de algum deles.
É costumeiro ao ser humano seguir princípios que lhe serve como padrão, como é habitual também, ele sobrepujar tudo o que transcende a “rotina”, ao menos exteriormente, já que na prática, muitos tentam encobrir de todos, usualmente até de sí mesmo, seus desatinos. São os filhos da hipocrisia!
Se admitissem uma pessoa, mais que simples estrutura física, movida por complexos impulsos interiores, e que tivessem, não apenas nesta vida, mas em tantas outras, estradas a percorrer, não haveria também dificuldades em vislumbrar a possibilidade, do porquê de certos eventos, embora raros, acontecerem.
Na concepção desta história, Estranho Destino, em sua maior parte, descrevemos acontecimentos incomuns que se incidiram sobre uma família, onde três filhos biológicos foram envolvidos desde seus nascimentos em uma dolorosa história de amor. No passar dos anos estes vínculos se revestiram de forma assombrosa, motivando em todos, perplexidades sem par e, além delas, cruciantes inquietudes de como seria o futuro dos três se tal situação persistisse até suas maioridades. Ela de fato aconteceu, já que se trata de um processo irreversível, ao menos para dois deles, um casal de gêmeos não idênticos.
Conviver por toda uma vida em tais condições representou desafios extremos aos pais e aos gêmeos, não plenamente vencidos, mas superados pelo poder do amor, compreensão e pela crença incondicional nos desígnios espirituais da vida, auxiliados ainda, sobretudo, pela fé irrestrita em Deus.
                        
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                                  Primeiro capítulo.
                                             Início.
Manhã ensolarada e os três irmãos, Geany, Thais e Lenita, sob os olhares atentos de seus pais, Mathias e Jane, brincam nas areias da praia de uma tranquila cidadezinha muita visitada por turistas, que como eles, amam a paz do pequeno, mas aconchegante paraíso.
Os irmãos gêmeos não idênticos, Thais e Geany, com onze anos de idade, são muito unidos e estão um pouco afastados da irmã mais nova, Lenita, uma menina muito inteligente e próxima de completar nove anos, que reclama de permanecer continuamente só, sem ter com quem brincar.
–Vocês não gostam de mim, vou procurar outros amiguinhos e nem vou ligar mais para os dois.
–Lenita, perdoe irmã, eu e a Thais estávamos fazendo bonecos de areia e ficamos muitos concentrados para vermos quem inventava o mais bonito, que nos esquecemos de tudo, tentou desculpar-se Geany.
–Não adianta supor que vai me convencer. Eu observo os dois há muito tempo. Só queria saber o que fiz para vocês não gostarem de mim, falou muito triste aos irmãos.
–Lenita você está enganada, argumentou Geany, nós gostamos muito de você.
–Como gostam se me deixam de lado? Não é somente aqui, quer onde estejamos agem tal como estão agindo agora, não existo para vocês.
Geany e Thais abraçaram ternamente a irmã caçula. Sabiam que ela tinha razão, apenas não conseguiam entender o porquê da necessidade compulsiva de estarem juntos um do outro. São irmãos, entretanto dois grandes e leais amigos, por maior que seja esta amizade, não possuem tamanha sintonia de anseios e afetividade um pelo outro, qual a existente entre ambos.
Mathias os observava entendendo que tal situação pode acontecer no seio de qualquer família e realmente acontece, não havendo assim motivos para maiores preocupações. Chamou Geany e Thais pedindo-os mais uma vez, pois esta não é a primeira, para darem a Lenita o carinho e atenção que ela precisa e merece.
–Tudo bem pai, disse o menino, vamos brincar nós três, fique tranquilo.
Pouco antes das onze horas a família retorna para casa a fim de preservarem-se da exposição excessiva dos raios solares.
De volta ao lar e após o almoço, Jane coloca com o devido cuidado, um assunto que a seu ver deveria ser considerado objeto de maiores atenções dela e do marido, com vistas aos relacionamentos entre os três irmãos.
–Compreendemos, disse ela, dirigindo-se a Geany e a Thais, que os dois desde que começaram a ter consciência do mundo que os cerca vivem grudados um no outro, parecendo mais dois amiguinhos que não se veem há meses, que dois irmãos.
Sempre houve muita afinidade entre vocês, eu e seu pai sabemos disto, mas crianças precisam de crianças para se relacionar, pois isto é um fator importantíssimo no desenvolvimento e bem estar delas.
Conseguem me explicar como é o mundo particular de vocês a ponto de esquecer-se que têm uma irmãzinha, e que ela sente falta do convívio de ambos?
Geany sente atração nada compatível com o afeto entre dois irmãos por Thais, e sabe que sua mãe vem observando isso. Sente-se confuso, pois sabe também que ela, a despeito de ser sua irmã, o busca ao seu encontro com idênticas reações. Ainda que nas fases iniciais da adolescência, possui qual Lenita, a irmã caçula, inteligência acima da sua idade e tenta uma explicação dissimulada sobre a questão, dizendo a sua mãe:
–Não existe nada de mundo particular nosso. Ele é igual ao de todas as pessoas, simplesmente não tenho e, creio que Thais também não, como fazer à senhora compreender o imenso prazer que sentimos de estarmos juntos. A nossa proximidade nos trás a sensação de sossego, de duas pessoas que se entendem, que temos praticamente os mesmos gostos e ideais. Agora, se isso é anormal e porque acontece conosco, não temos como esclarecer à senhora.
Jane olha para seu marido e ele calmamente argumenta:
–Penso que está dando demasiada importância à maneira de ser deles. Você já deve ter presenciado várias vezes, pessoas que nunca se viram e no primeiro olhar algo inexplicável cria um campo mágico de meiga à extrema atração entre elas, como se conhecessem de algum lugar, entretanto nunca estiveram frentes um do outro. Parece-me também que este fato nada tem a ver com sexo, raça, idade ou posição social. Se esta ocorrência sucede entre desconhecidos, por que no seio de uma família ela não pode atuar? Apesar de ainda ser uma criança, é verdadeira a afirmação de Geany; não existem meios de entendermos tudo o que abrange o comportamento humano. Os sentimentos que os une, não raro, de forma inversa, são infernos nas vidas de muitos pais e de irmãos que se detestam sem nenhuma causa aparente.
Desde que Lenita não fique exclusa ao amor e companheirismos de ambos, deixemo-los viverem como gostam.
Ao terminar Mathias, Thais diz a sua mãe:
–Fica em paz. Eu e Geany gostamos muito de estarmos sempre juntos, mas a senhora está certa, precisamos dar atenção a Lenita e a prometemos a partir de agora que ela não se sentirá mais abandonada.
A promessa de Thais foi a rigor cumprida e a caçula Lenita, com o passar do tempo, embora ame a presença de sua irmã e mais ainda a de Geany, parece ter conseguido certa emancipação deles.
Logo no início do Ensino Fundamental, há algum tempo, quando Geany e Thais começaram a estudar juntos no mesmo colégio, Jane teve um sonho com certo homem que ela acredita tê-lo visto várias vezes e, ao mesmo tempo, supõe que estas visões foram frutos de sua mente. No sonho ele a sugeriu assim que Lenita também ingressasse no mesmo curso, que ela estudasse com Thais e colocasse Geany em outro colégio.
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Ele agora com dezessete anos e alguns meses se prepara para a faculdade em um curso pré-vestibular e Thais, também apta a fazê-lo, está no mesmo que seu irmão. Ela deseja se formar, movida por intenso anseio interior, em Enfermagem.  Em pouco tempo depois Geany e Thais estão muito próximos da maioridade e atravessaram quase que por completo a transição entre a juventude e a condição de adultos, sendo levemente influenciados por ela, mas Lenita desde que ingressou na mocidade a vive de forma plena.
A adolescência é uma fase onde as tendências e afetividades, entre outros aspectos nas vidas dos jovens, muitas das vezes sofrem mudanças profundas. Começam a namorar, a frequentarem festinhas... Porém, para os “excêntricos” gêmeos, ela passou praticamente “em branco”, com acentuada exceção ao comportamento de Geany.
Ele, que até os doze anos fora um menino extremamente extrovertido, agora quase adulto fala pouco e se dedica com muito empenho aos estudos.
Seus pais acompanhavam com certa surpresa a gradual transformação que se operava no filho e, num determinado dia, pouco antes de completar os dezoito anos, ele os disse resoluto que vai se formar em Medicina, sendo que no término do curso irá viver na Itália e lá se pós graduar, bem como dar continuidade à carreira nela.
–Filho, perguntou Mathias, curioso e triste, não pela sua pretensa vida profissional, mas por desejar viver tão longe deles, pais e irmãos: por que na Itália?
–Não sei ainda pai a razão de querer viver lá. O país como um todo sempre exerceu fascínio inexplicável sobre mim.
–Tenho que concordar que mistérios de inúmeras naturezas existem em todos os recantos do mundo, e você se sentir encantado com um país onde nunca esteve é apenas um deles, ponderou Mathias.
–Sim, pai, é verdade, mas deixemos que o destino se encarregue de realizar ou não os meus sonhos. Por enquanto vou me preparar para a vida da maneira mais prática possível.
–Meu filho tem razão, refletia Jane. Deixemos o destino se incumbir das nossas vidas, embora intua que no futuro ele nos reserva surpresas nada comuns.

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                                Segundo capítulo.
                 Pronto para o vestibular de medicina.
Terminou o curso preparatório de Geany e ele aguarda ansioso pelo vestibular.
Estava em casa numa sexta-feira e à tardinha recebe a visita de um amigo com a idade de apenas dois meses a frente da sua, e que fez com ele os estudos neste mesmo curso preparatório para terem mais chances de aprovações nas suas pretensões universitárias.
A razão desta visita é convidá-lo para a casa de praia da família situada em um grande condomínio fechado, e passar com eles lá o tempo que fosse possível, uma vez que o vestibular estava programado para vinte dias depois.
–É tentadora a sua proposta Alex, mas queria aproveitar estes dias que faltam e continuar revisando com afinco as matérias mais complexas para não ser pego de surpresa nos exames, e ver o meu sonho dificultado.
–Meu amigo, todos que fizemos este curso na mesma turma, sabemos o quanto você é inteligente, aplicado e foi também, com larga vantagem, o mais bem colocado nas periódicas avaliações. Igualmente sabemos do fato de que nem sempre o melhor consegue aprovação no vestibular, ainda que tenha estudado qual a nós no mesmo curso, e com a idêntica pretensão universitária. Penso que acontecerá o que tiver de acontecer.
Para Geany esta afirmação do seu amigo era mais abrangente do que ele poderia imaginar.
–Tudo bem Alex, eu topo.
–Que bom amigão, mas você não vai me apresentar os seus familiares?
–Estamos em casa apenas eu, minha mãe e a minha irmã gêmea. Meu pai e a caçula estão ausentes. Os conhecerá em outra oportunidade. Por favor, me acompanhe.
Conduziu seu amigo a sala enquanto procurou por sua mãe e Thais, uma vez que Alex fora conduzido ao seu quarto pela zeladora da casa, autorizado por Geany.
Ele chega à sala, acompanhado de sua mãe e irmã. Geany as apresenta e Alex fica impressionado pela beleza de Thais.
–Aqui estão: minha mãe Jane e a minha irmã Thais.
–É um imenso prazer em conhecê-las, disse a Jane e a Thais.
Sentaram-se os quatro e Alex esforçava-se para manter a discrição sempre que olhava ou falava com Thais. Estava literalmente encantado pela irmã do amigo.
Também não percebera o quando era estudado por Jane e observado por Geany que, apesar de Alex ser considerado o seu único e verdadeiro amigo, sentia-se desconfortável com aquela situação.
Thais por sua vez sabia que estava sendo, a julgar pelo brilho intenso nos olhos de Alex nas vezes que a fitava, alvo de possível galanteio pelo amigo de seu irmão.
É uma jovem encantadora; olhos cor de mel, transparentes, cabelos castanhos claros quase loiros um pouco abaixo dos ombros, rosto encantador e definidamente meigo que exibe ainda, a personalidade de uma moça tímida.  Sentiu despertado seu instinto feminino, já que Alex, a despeito de não ser belo qual a seu irmão, e igualmente não possuir os dotes físicos dele, não deixa de ser um rapaz muito interessante.
Enquanto conversavam ora observava atentamente a Alex, ora a Geany e sentia seu coração oprimido.
Está diante de si, entre tantas outras que já apareceram na sua vida, oportunidade de ter um namorado, desfrutá-la nesta fase de sonhos e encantamentos, pela qual passam as maiorias dos rapazes e moças da sua idade.
Pela maneira de conduzir os argumentos do que conversava, seu jeito de ser e de olhar, o avaliava, ao menos em algumas peculiaridades, à frente do seu tempo, tal qual seu irmão, porém mesmo tendo tido atração física e pela personalidade de Alex, embora não desejasse, tudo não passava de simplesmente isso. O tão desejado amor encontra-se sufocado não seu coração e sente-se desesperada por não o poder vivê-lo.
Jane conhece perfeitamente seus filhos e lamentou ao evidente não interesse de Thais pelo visitante, da forma que desejava.
–Ela é ainda muito jovem, pensava, mas tenho dúvidas de que com o passar dos anos tenha olhos para outros rapazes que não seja... Meu Deus! Gostaria tanto de estar enganada. Não sei o que acontece com estes meus dois filhos, entretanto isto nada tem a ver, como supôs Mathias, com a tal extrema e meiga atração que comumente ocorre com muitas pessoas. Meu coração de mãe me diz que algo inexplicável liga de forma assustadora estes meus dois amores. Creio não estar enganada, mesmo por que, qual a razão daquele estranho sonho?
Sim, suas suspeitas interiores estão corretas, contudo não imagina que ela extrapola e muito, este “algo inexplicável”, e ficará assombrada quando descobrir que Lenita também está enlaçada nesta “trama do destino” e que esta é a principal razão “daquele estranho sonho”.
Sua fé religiosa não vê nas vidas sucessivas uma abominação, no entanto é uma possibilidade para ela, e também crer que para seu marido, completamente descartada.
Saiu de suas reflexões e se dirigiu ao visitante:
–Vou mandar servir um lanche para nós. Tem alguma preferência especial, Alex?
–Não senhora Jane.
Conversavam descontraidamente durante a leve refeição e Alex explica a mãe e filha a razão principal da sua visita ao querido amigo.
–Duas semanas?! Pergunta e exclama Thais, para a surpresa de Alex.
–Sim, duas semanas. Acredito que será muito bom para Geany se descontrair antes de enfrentar este fantasma que assusta a todos nós.
–Se está se referindo ao vestibular não o vejo desta forma. Em minha opinião é se sentir de fato preparado, inclusive emocionalmente para ele ou não, e tenho certeza absoluta de que Geany está.
–Parece que você tem razão, mas pretendo até o dia em que ele chegar, arejar a minha mente e sugeri a Geany fazer o mesmo. Apenas não entendi o seu espanto em saber que ele estará ausente de casa por duas semanas. Esteja certa de que meu amigo permanecerá seguro na nossa companhia, referia-se a ele e família.
Se você desejar e seus pais concordarem, poderá também vir conosco.
Jane notou o brilho intenso nos olhos da filha pelo convite, todavia, ponderou:
–Agradeço por ela, mas ficará para outra oportunidade, Alex.
Thais ficou muito triste, porém sabe do extremo zelo de seus pais pelos filhos, e que ambos apenas concordariam se conhecessem plenamente Alex e toda a sua família.
Geany e Thais já são adultos, pois completaram no mês anterior dezoito anos de idade, mas ele é homem e menos exposto aos mais diversos riscos que as suas filhas, compreendendo assim a atitude de sua mãe.
Terminado o lanche Geany convidou o amigo para continuarem suas conversas no seu quarto.
–É uma pena, comenta Alex; sua irmã me pareceu tão feliz quando a convidei para ir também junto a nós.
–Você se encantou por ela, não, amigo?
–Dei tanta mancada assim? Espero que apenas você tenha percebido isso.
–Todos, percebemos.
–Perdoe-me. Foi um acontecimento inesperado, mas pelo que notei, ela não deu a mínima para mim e creio ter sido muito melhor, ignorado.
Permaneceram conversando por algum tempo e quando Alex ia se retirando Lenita chegava a casa. Apresentou-a ao amigo e disse-lhe:
–Você agora com exceção do meu pai, conhece toda a minha família.
O visitante despediu-se dos presentes tendo a promessa de Geany, que ele conheceria seu pai no dia seguinte, quando o viria buscar para o programado lazer.

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                                  Terceiro capítulo.
   
Tarde de sábado com o céu límpido, muito calor, e o mar levemente revolto é um convite especial para os praticantes de surf e outras modalidades radicais a ele semelhantes.
Da mesma forma que Geany, Alex têm duas jovens e lindas irmãs: Bruna, a de mais idade, próxima de completar vinte e dois anos e Carla com vinte. Ambas se encantaram pelo amigo do irmão, logo na apresentação dele a família.
Duas horas depois do almoço partiram os quatro para a praia. Carla e Bruna, além de exímias nadadoras, amam os desafios das ondas, deslizando graciosamente por elas apoiadas em suas pranchas decoradas.
Geany sempre amou o mar, mas nunca se sentiu atraído por estas modalidades de esportes marítimas.
Curtia as delícias das águas de maneira discreta e sem se ariscar a ir muito longe da praia, ainda mais com o mar um pouco agitado. Como a natação, principalmente no mar e por tempo prolongado exige bom preparo físico, ele voltou e sentou-se em uma das cadeiras sob o guarda-sol para descansar, e apreciar as belas paisagens proporcionadas pelo céu azul, o mar com o rugido de suas ondas, bem como os banhistas que se divertiam; uns nas águas, outros praticando esportes nas areias e outros ainda transitando de um lado para outro.
Sentindo-se maravilhosamente bem ouviu Carla chegando e o dizer:
–Estou exausta e você, pelo que parece, muito mais ainda.
–Tenho pouco tempo disponível e por conta disso vou raramente à praia, cinema, teatro e os lazeres que todos mais apreciamos.
–Nossa! Pretende ser um destes cientistas obstinados que abdicam de suas vidas para passarem seus dias estudando ou pesquisado algo?
–Não, não. Desejo ser médico, simplesmente isso.
–Convenhamos, disse ela, que existem médicos e proficientes estudantes onde sempre lhes sobram tempo para recreações diversas, afinal a vida não é apenas feita de trabalhos e estudos.
–Concordo contigo, mas para ingressar em uma conceituada faculdade pública de Medicina o pretendente a ela precisa ser muito dedicado aos estudos, do contrário dificilmente conseguirá. Também existem médicos que trabalham demasiadamente, além do que para ele ser bom na sua especialidade precisa se atualizar constantemente, frequentar congressos e uma série de imposições profissionais para ser excelente na carreira que abraçou, pois não pretendo ser apenas mais um médico.
–Compreendo, porém sabe que são poucos os médicos, em relação a grande maioria, que ganham fortunas com a medicina, não?
–Desejo apenas uma vida confortável Carla. Ser rico ou milionário não faz parte dos meus planos futuros.
–Não sou especialista no assunto, contudo creio que ser muito rico fosse um entre seus desejos, o seria em pouco tempo.
–É, e como, pode me esclarecer? Perguntou Geany, curioso.
–Deixa de ser modesto, olhe em sua volta.
–Faço isso desde que chegamos aqui. Aonde quer chegar?
–Cara não se faça de inocente! Não percebe o mulherio te comendo com os olhos? E não são apenas as gatas, até as mocinhas, as maduras e velhas. Tem inclusive um monte de homens te sacando. Bom, ao menos parecem ser do sexo masculino.
Geany sorriu pela maneira dela falar e fazendo gestos cômicos.
É de fato um privilegiado pela natureza. Muito belo e carismático, alto, porte vigoroso invejável, olhos cor de mel, cabelos castanhos claros e abundantes, tendendo ao loiro, quais os de Thais. Poderia sim, sem dúvida alguma ser um ilustríssimo modelo. A despeito destes atributos é amado por todos, rapazes e moças, pois é demasiadamente simples e possui um nobre interior.
No colégio onde estudou, antes do curso preparatório para o vestibular, fora apelidado desde o início por Adônis, pela sua natural elegância e beleza física, não, obstante, causava estranheza aos amigos por nunca ter se interessando por moça alguma, pois nos nove anos estudando no mesmo colégio, dera provas suficientes da sua masculinidade.
Era cobiçado pelas donzelas e respeitado pelos amigos, que o via como um rapaz excêntrico. Muito cativante, solícito, e sempre o mais bem colocado nos exames escolares, era igualmente o mais humilde entre todos.
–Essa atividade, explicou ele a Carla, seria a última que exerceria na minha vida.
–Por quê? Perguntou a já amiga e ele ainda não notou, pretendente à namorada.
–Acredito que muitas pessoas têm um ideal na vida, e o meu é a Medicina. Se não for médico serei qualquer outra coisa, menos essa ocupação.
–Tudo bem, mas você tem algo contra os modelos homens?
–Não tenho nada contra nenhuma profissão honesta, porém ser modelo não é a minha praia, compreende?
–Acho que sim. Posso te perguntar algo?
–Esteja à vontade.
–Sua namorada deve viver de sobressaltos, estou certa?
–E por que ela viveria de sobressaltos?
–Geany a pouco te mostrei o óbvio! É cego por acaso?
–Não tenho namorada Carla, nunca tive.
–Está de gozação comigo, não está?
–Quisera de verdade estar amiga, mas é a pura realidade.
–Não dá para entender esta sua afirmação.
–E você não tem a menor ideia do quanto não dá mesmo, disse Geany com o olhar muito triste.
–Nunca amou ninguém?
–Talvez me julgue um desajustado mental, entretanto já nasci amando.
–O conheço há pouco tempo, mas o suficiente para saber que você nada tem de anormal mentalmente, por outro lado o que acabou de me dizer, ligado ao fato de nunca ter namorado moça alguma, é uma enigma. Pode me esclarecer o que quis dizer com isso?
–Infelizmente não posso Carla. Apenas uma pessoa no mundo conhece o meu dilema e...
Silenciou. Não podia de forma alguma entrar em detalhes.
Carla, o olhava pensativa:
–Sem duvida, ele vive algum conflito interior muito grave.
Os traços do seu rosto, naquele momento, revelavam que não desejava questionamentos, tocar de forma alguma no assunto que estavam abordando.
Sentada ao seu lado também ficou em silêncio e discretamente o observando.
–Como ele é lindo, pensava. Notou seu olhar perdido ao longe, mas repentinamente acontece algo que não contrastava com o seu comportamento até então.
Viu que ele acompanhava com os olhos uma bela jovem que acabara de sair da água, e caminhando em sua direção passou por eles, sugerindo lisonjeada por ter a atenção dele no seu rosto de forma insistente.
Carla nada entendia quando ele voltou à cabeça para trás, com a evidente intenção de continuar a admirando, e contente por ela prosseguir andando também o olhando. Não longe deles sentou-se em uma cadeira próximo a um rapaz que supostamente a acompanhava.
Sentiu-se surpresa por invejá-la e pelo grande ciúme experimentado com a inusitada reação de Geany. Sem conseguir conter-se, perguntou-o:
–Você a conhece?
–Quem?
–Ora, quem! A moça que entre o monte delas que aqui se encontra, inclusive eu, fui a única que o enfeitiçou. O que você viu nela que nenhuma de nós, possuímos? Perguntou-o qual a uma namorada enciumada.
–Nada Carla, apenas curiosidade. Você é tão linda quanto ela.
–Curiosidade? Que curiosidade mais estranha!
Na verdade a jovem é extremamente parecida de rosto e corpo com a Thais, sua irmã.
–Está sentada logo ali, atrás de nós. Não quer ir conversar com ela?
–Carla! Exclama Geany e a pergunta, surpreso: o que está acontecendo contigo?
–Comigo nada. Por quê?
–Ficou visivelmente irritada com a garota. O que ela fez para ficares assim?
–Não fez nada, apenas sei que não devia e nem o porquê, senti ciúmes, somente isso.
Geany nada comentou. Já vira esta reação em outras moças inúmeras vezes.
Observou Carla olhando para trás com obstinação e fez também o que não devia; acariciou os cabelos da amiga e a disse carinhosamente:
–Esquece-a. O que vi nela é algo que igualmente não posso te esclarecer. É qual um fantasma que me persegue, compreende?
–Como posso compreender? Não sei nada a respeito desse fantasma. Se ao menos confiasse em mim e se abrisse comigo poderia compreender, além de você poder também desabafar.
–Sim, é verdade, porém não se trata de não confiar. A coisa é mais complexa do que possa conceber.
–Tudo bem. Ao menos não olhe mais para ela, promete?
–Mas, quem está olhando é você.
Carla que sentada muito próxima a Geany encostou ainda mais a sua cadeira da dele e, em seguida, para a sua surpresa, o abraçou beijando-lhe de forma abrasadora os lábios.
Cenas de ciúmes de outras jovens são constantes em sua vida desde os seus dez anos de idade, contudo, extremo qual a este cometido por Carla, foi o primeiro.
Apesar dos dezoito anos e extremamente belo, não havia experimentado um beijo sequer, ainda mais ardente e apaixonado como ao que acabara de receber.
Os “hormônios”, naquele momento, falaram mais alto que o seu abafado e incompreendido amor, que tenta a qualquer preço ocultar de si mesmo.
Fora uma ocorrência marcante para ele e em consequência, duplas surpresas para ambos:
Carla constatou sua inexperiência ao beijo plenamente correspondido, e Geany no intenso desejo que jamais imaginava sentir por mulher alguma que não fosse pelo seu amor proibido.
Perdidos na abrupta e incontida paixão, os dois não se lembraram de que estavam em local público, entregando-se ambos as carícias quase que desenfreadas quando ouviram a voz:
–Caraca, a coisa ai tá pegando fogo!
Quando Geany olhou para cima, vendo Alex ao lado de Bruna, sua irmã mais velha, sentiu-se muito envergonhado e, levantando imediatamente falou ao amigo:
–Perdoe-me! Não sei como deixei isso acontecer.
–Calma cara, ela é minha irmã e não minha mulher, disse Alex e observou: você está vermelho igual a um pimentão!
–A culpa foi minha, adiantou-se Carla.
–Culpa do quê? Perguntou Bruna desejando estar no lugar da irmã. Quem resiste a um gato deste? Apenas exageram um pouquinho, pois muitos estavam olhando os afagos um tanto desregradas entre vocês.
–Tem razão Bruna, concordou Geany, acrescentando: isto não irá mais acontecer em lugar algum.
–Que tolice, replicou; vai prometer o que não pode cumprir?

–Que tal esquecermos isto e irmos todos para a água? Convidou Alex.

============ESTRANHO DESTINO============

                                 Quarto capítulo.
Os pais de Alex se afeiçoam ao querido amigo de seu filho.

À noite jantando com o amigo e seus familiares, Carla e ele trocam olhares, observados por Bruna, enquanto os demais conversam. Os pais de Alex, Giulio e Brigitta, se afeiçoaram a Geany pela sua maneira de ser. Fala pouco quando inicia alguma conversa, mas não resguarda nas palavras sempre que é indagando seja sobre qual assunto for. É metódico nas explicações e as faz de forma inteligente e agradável, que o torna uma excelente companhia para trocarem ideias.
O nome dos pais do amigo o deixou curioso por terem origem italiana.
–Senhor Giulio perdoe-me a curiosidade: o senhor e a senhora Brigitta são descendentes de italianos?
–Sim, somos, e também primos de segundo grau.
Nossos avós vieram de Florença porque passaram por longo tempo lá, dificuldades que pareciam não ter fim. Aconselhados por parentes de patrícios que vieram para o Brasil e obtiveram êxito aqui, resolveram fazer o mesmo.
Apesar de quase nada trazerem conseguiram em três décadas formar um médio domínio empresarial que foi passado aos filhos e, igualmente beneficiaram de forma substancial os netos.
Quase todos os anos, vamos passar férias lá por diversos bairros e também outras cidades vizinhas. Se desejar poderá em algumas dessas visitas, nos acompanhar.
Todos surpresos perceberam os olhos de Geany brilharem e a alegria estampada em seu rosto pelo convite.
–Você parece que ficou muito feliz, observou Bruna e o perguntou: esteve na Itália alguma vez?
–Não, nunca estive, mas amo a Itália.
–Por quê? O questionou, curiosa, Carla.
–Não sei explicar o motivo, porém tudo o que vi da Itália, através de fotos e documentários me deixou fascinado por ela.
–Nossos pais adoram a pátria de seus avós, sobretudo a cidade deles, mas eu não, e pelo o que me parece Alex e Bruna igualmente não curtem muito estes passeios. Quase todos os prédios possuem estilos antigos. Os lugares são repletos de estátuas, igrejas e monumentos. Parece um gigantesco museu, fez seus comentários sobre os lugares onde esteve na Itália, Carla.
–Deve ser lindo! Exclamou Geany.
Olharam-no curiosos.
–Você gosta dessas coisas antigas? Quis saber ela.
–Antigas no seu conceito, pois para mim são artes eternas.
Não conheço e nem disponho de meios para avaliar todos os países do mundo, sobretudo suas culturas, mas acredito que a Itália possui acervo artístico e arquitetônico superior a todos, no sentido da genialidade de seus criadores, bem como tradições apreciadas por muitos povos do mundo.
Giulio e Brigitta, o olhavam perplexos. De que maneira este jovem chegou às conclusões afirmadas com tanta convicção? Indagavam-se. Parece um velho e autêntico romano apaixonado pelo seu país.
Terminado o jantar, com os donos da casa maravilhados com o visitante, quando Alex o convidou para se divertirem em um clube próximo dali.
–Também queremos ir. Disseram quase em uníssono, Carla e Bruna.
–Não sei a que horas voltaremos. As alertou Alex.
–E dai? Perguntou Bruna. Não somos mais duas menininhas, além do que estaremos nas companhias de dois homens másculos.
Durante a breve viajem de carro, Bruna e Carla conversavam a respeito de Geany:
–Não o monopolize viu? Afinal não há nenhuma evidência de que vocês são namorados. Aquela ocorrência foi fortuita e pode perfeitamente acontecer comigo também, por que não?
–Não chateia Bruna! Lá tem um monte de rapazes. Cheguei primeiro, não esqueça.
–Tá. Deixa-o sentir o meu charme que você dança rapidinho.
–Você fala irmã como se fossemos a um lugar onde apenas estarão presentes nós duas de mulheres. E caso ele se interessar por outra ou outras?
–Sim, Carla, pode ser. Espero que isso não aconteça, mas se acontecer, nada de vexames, certo? Ele tem pleno direito a escolhas.
–E eu, meus motivos para achar que serei a preferida.
–É mesmo? Está muito segura de si, sabe?
Carla e Bruna além de pretensiosas, não possuem a capacidade de ajuizar que existem processos envolvidos nas existências de todas as pessoas.
Não imaginam que no coração de Geany há muito, mesmo antes desta vida reside alguém, e isto é um fato impossível de ser mudado.
Chegando ao destino desembarcaram do carro e dirigiram-se ao salão de festas, frequentado por pessoas de várias faixas etárias, que está animadíssimo.
Alex prepara uma mesa para os quatro e avisa que ao menos um precisa ficar atento aos seus pertences enquanto os demais vão para a pista de dança.
–Podem ir se divertirem que fico aqui, disse Geany.
–Vou te fazer companhia, prontificou-se Carla, para o desagrado de Bruna.
–Quando eles voltarem e tocar músicas românticas você dança comigo?
Geany sabia que ela não iria lhe dar tréguas, mas gostou do convite, pois sentiu com Carla, pela primeira vez na vida, o prazer imenso nas caricias sensuais de uma jovem mulher que despertara nele, desejos a seu ver, algo que poderia trazer-lhes situações embaraçosas, já que o mundo de “democracia” dos jovens de todas as classes sociais é um apelo para nele penetrar. Embora também jovem, até então, mantinha-se as margens dos costumes que a maiorias deles cultivam.
O salão possui dimensões consideráveis e com dois ambientes: uma área reservada a entretenimentos e refeições, com iluminação, a eles adequadas, e outra unicamente para pista de dança, aclarada apenas pelos feixes de luzes coloridas que se movimentam ritmicamente pelo salão.
Apesar do isolamento acústico entre os dois ambientes, sempre que alguém entra ou sai o que acontece inúmeras vezes, sabe quem está no setor de recreações, às músicas que tocam no espaço destinado as danças.
Após meia hora conversando, Carla avisa a Geany que vai chamar Bruna ou Alex para ficarem em seus lugares, já que agora a música é suave e ela deseja dançar com ele.
O tipo de iluminação dificulta um pouco a identificação imediata de quem lá se encontra, mas ao localizar Alex o deixa ciente da sua intenção.
–Vamos procurar a Bruna? Pergunta ela ao irmão.
Ele já prevendo a competição por Geany, a disse:
–Não. Deixe-a até que ela se canse. Não esqueça de que vamos fazer um revezamento de meia hora. De vez em quando deem uma olhada no display do celular, pois aqui é a maneira mais prática de se verificar a hora, porém não se empolguem demais e esqueçam de que também estou aguardando ok?
Voltaram para onde estava Geany, e Carla pegou em sua mão convidando-o a dançar, seguindo ambos para o ambiente a este fim destinado.
Enquanto conversavam no outro recinto ela aguardava ansiosa por este momento; dançar juntinha a ele, já que antes de conhecê-lo, bailar, seja qual ritmo e com quem fosse, era simplesmente uma diversão, mas nos braços de Geany descobriu o que duvidava de tão cedo acontecer na sua vida; estava amando e sabia que este sentimento nada possuía de um mero capricho. É uma jovem mulher que há pouco deixara a adolescência, e qual a muitas delas experimentara e, por várias vezes, paixões repentinas que igualmente de forma súbita eram substituídas por outras.
Deslizava suavemente pela pista enlaçada a ele, sentindo-se surpresa. Falava muito, contudo em silêncio, e de rosto colocado com o agora seu amor, ao menos para ela, acariciava seus cabelos e procurava manter seus lábios muito próximos aos dele, num evidente convite a ser beijada, o que aconteceu continuamente.
Geany por sua vez se sentiu ao mesmo tempo, surpreso e confuso.
Fora colocado pelas circunstâncias, já pela segunda vez, em ocorrências que o deixa em situações conflitantes. Por um lado estava completamente envolvido por Carla; as fragrâncias de sua pele, de seus cabelos, as carícias estonteantes e imensamente a ele prazerosas, por outro, o seu interior lhe transmitia sentimentos de culpa, como se o alertasse de que ela o trás sensualidades, mas dificilmente a amará um dia.
–Por que preciso viver assim? Pergunta-se amargurado.
Se me fosse possível vincular ao amor por Thais a tudo o que venho sentido por Carla, seria o homem mais feliz deste mundo, mas, ela é minha irmã... Não sei qual e nem como, porém deve haver uma desconhecida e implacável razão para tudo isto.
Carla continua ali, em seus braços, e ele tenta a todo custo abafar a voz provinda de seu âmago, correspondendo aos carinhos dela e, em dado momento, Bruna aparece e os diz:
–Estava procurando por vocês. De tão colados um no outro quase me foi impossível reconhecê-los.
–Mas, reconheceu. Agora vá substituir a Alex, você já se divertiu bastante.
–Deixa primeiro eu dançar um pouco com Geany.
–Vamos sair, estou com sede. Mais tarde dançamos, disse Geany a Bruna.
–Oi Geany o que houve? Perguntou Alex. Voltaram logo, referiu-se ao amigo e a irmã Carla.
–Nada de mais Alex, apenas estou com sede.
–É essa a razão mesmo? Perguntou observando a reação de Bruna.
Carla para não criar um clima desarmonioso ficou em silêncio, mas, a julgar pelas correspondências de afetos entre ela e Geany, ele estava sentindo-se muito bem em sua companhia e, se ainda não a amava, isto poderia acontecer a qualquer momento. Supunha estar certa disso e não se preocupava com as investidas da irmã.
–Agora vou voltar para as danças, avisou Alex e perguntou: quem me acompanha?
–Vá também Geany. Satisfaça a curiosidade de Bruna. Ficarei aqui de plantão.
Carla ficou feliz por notar Geany se retirando olhando-a com ternura.
De volta as emoções, agora da maneira que ainda não havia vivenciado, e tendo Bruna junto de si aos mesmos passos das musicas românticas que continuavam, não imaginava o quanto ela é diferente da irmã em muitos aspectos.
Ela conhece como ninguém a fragrância do perfume preferido de Carla e com o rosto muito próximo ao de Geany, percebeu de imediato que ele aderiu à camisa e a pele dele.
Durante os primeiros instantes abusou de recursos mais que sensuais para tentar seduzi-lo, pois o que presenciou quando o viu enlaçado a Carla, pressentia que deveria ser ousada para conseguir superar sua irmã.
Encostou os lábios no ouvido esquerdo da sua pretensa conquista, e murmurava palavras de elogios enquanto ofegava na respiração, bem como colava seu corpo ao dele, na expectativa de obter os efeitos desejados.
Geany percebeu de imediato sua intenção, muito mais atrevida que as iniciais, nada ajustadas com simples divertimento. Sabem perfeitamente que situações semelhantes ocorrem inúmeras vezes em eventos iguais a este, afinal um homem e uma mulher, tal como eles estão no momento; luzes indefinidas alternadas a penumbra, mais as músicas suaves, contribuem a um clima propício tanto para as trocas de ternuras entre pessoas apaixonadas, divertimentos apenas, quanto à tendência ao erotismo, e torna este último muitas das vezes, inevitável.  
Bruna com seus dotes femininos de uma graciosa e jovem mulher, não mede consequências quanto aos seus atos, pois eles estão revestidos de paixão, mesclados a desejos frenéticos, e não se importa se são inescrupulosos. Quer conseguir a atenção de Geany a qualquer preço e usa os recursos que se fizerem necessários para realizar o seu intento. Para ela guerra é guerra, e não vê relevância em quem seja o adversário.
Geany ao calor das ações de Bruna, muitíssimas além da discreta sensualidade, cede, mas torce para que algo aconteça e acabe logo com o que ele vê como indecoroso e de fato é.
Prontamente, como que atendendo ao seu apelo o ritmo muda, mas Bruna fica certa quanto ao resultado que esperava.
Logo no início das músicas acaloradas avisa-a que deseja sair dali.
–Ele sentiu-se receoso ou com vergonha, não vejo outra razão para querer sair, pensou ela.
Chegando onde está Carla, ela o percebe como se estivesse envergonhado. Realmente Geany não está se sentido a vontade ali e Carla o pergunta:
–Deseja ir embora? Poderemos ir para outro lugar.
–Quem, vocês dois ou todos nós? Quis saber Bruna visivelmente contrariada.
–Eu e Geany, mas ele quem resolve. Aguardaremos o retorno de Alex para decidirmos isso.
Quando ele chega, suado de tantos movimentos, fica surpreso ao ver os três ali sentados, o aguardando.
–O que houve? Vocês estão esquisitos!
–Geany não está curtindo muito isso aqui não, explica Carla.
–Mas, amigão, está maravilhoso lá dentro, a menos que algo o tenha contrariado. Se você quiser poderemos ir para casa ou outro lugar qualquer.
–Não Alex. Divirtam-se todos. Ficarei aqui sem problema algum.
–Não mesmo! Sem você igualmente se divertindo também não me sentirei a vontade. Vamos pensar em outra opção, e voltar para casa poderá ser uma delas.
–Eu volto só então, ok?
–E o que dirá aos nossos pais quando lá chegar?
–Que fiquei com dor de cabeça, não resolve?
–Claro que não. Acha que essa desculpa vai colar? Meus pais enxergam longe, comentou olhando para Bruna e Carla.
–Não fizemos nada que o levasse a não gostar daqui, concorda Geany? Perguntou Bruna.
Carla sabe que, embora ali não seja um dos lugares preferidos pelo excêntrico convidado de seu irmão, ele estava bem até Bruna convidá-lo para dançar.
–Ela forçou demasiadamente a barra deixando Geany envergonhado, e certamente preocupado com os possíveis posteriores comentários, pensava Carla, enquanto olhava com reprovação para a irmã.
Carla tem razão. Ele sente-se envergonhado mesmo, e o pior, um fraco.  Não teve a altivez de logo ao perceber o que Bruna desejava deixá-la só e sair, se bem que isso poderia acarretar mais problemas, visto que Carla iria ficar muito brava com a irmã. Seria problema dela e talvez a ajudasse mudar sua conduta, entretanto optou pelo meio termo. Errou, todavia tirou deste evento boa lição, pois sabe perfeitamente que é fundamental respeitar a si mesmo, antes de respeitar as pessoas. Vai doravante ter cuidado com a Bruna, mas não deseja prejudicar a diversão do amigo e de Carla, convidando-os:      
–Hei gente, não vou estragar a festa, disse o pretenso retirante, com a intenção de dar a entender que desejava se enturmar aos demais. Vamos agora nos divertir a valer.
–Gostei de ver amigão, mas a Bruna vai ficar agora de plantão.
–E por que eu Alex? Tenho meus privilégios por ser a mais velha, esqueceu-se deste detalhe seu mandão?
–Engraçadinha! Até que poderia os ter se não fizesse tantas asneiras.
O tempo passava e por volta das duas horas retornam a casa.
No dia seguinte, à tarde, Alex sai com Geany e Carla ao lado de Bruna, sentadas a mesa na varanda, conversam sobre o enigmático amigo de seu irmão:
–Você pegou pesado com ele Bruna e me deixou aborrecida. Por favor, não faça mais isso.
–Precisava pegar. Já tinha observado ele começando a parar na sua. Não me restou outra opção a não ser o tudo ou nada.
–E tudo indica que deu nada para você, apenas não sabe que para mim também.
–Como assim? Ele se comportou o tempo todo como se estivesse gostando de você.
–Disse a palavra certa; “como se estivesse”, mas não está e, creio, nunca estará.
–Pode me esclarecer isso Carla?
–Não tenho a menor ideia do que, porém o nosso gato deve ter algum problema muito sério na sua vida.
–Estranho! Não notei isso nele. Tenho certeza absoluta de que ele me curtiu pra valer. Se fosse outro certamente me convidaria para irmos a algum local apropriado a abaixar o meu fogo. Cheguei até a pensar que não o fez em consideração a Alex.
–Abaixar o seu fogo, não é mesmo Bruna? Precisa ter muito cuidado com isso irmã! Ele é o Geany e pode até ter fraquejado, pois é homem e também um ser humano, mas corre grande risco de se envolver em situações extremamente perigosas, viu? A sua ousadia a poderá leva-la cair nas mãos de um ou mais cafajestes. Não brinque com a vida irmã!
Bruna abaixou a cabeça, concordando com Carla.
–Voltando agora ao que ia te dizer: comigo ele teve dupla reação; retribuiu intensamente as minhas carícias com muita ternura, ao mesmo tempo em que se deixou conscientemente levar e, de forma plena pela sensualidade, mas não no sentido da libertinagem que seguramente você o fez experimentar. Talvez, pela fisionomia dele quando vocês saíram do salão, estivesse duvidando do próprio caráter, já do seu, sem comentários. O que você conseguiu com isso sem dúvida alguma, é que ele agora quer se manter distante da sua presença, ao menos em situações quais a estas. Não deveria ter feito isso irmã. Geany é um cara fora de série e penso ser muito difícil encontrarmos outro igual.
–Você tem toda razão Carla. Preciso mudar e muito. Por favor, peça perdão a ele por mim, pois não terei coragem. Mas, o porquê de você afirmar que ele deve ter algum problema sério?
–Depois do que você fez, mais tarde, voltamos a dançar colocadinhos e ele me beijava com muito mais carinho. Fui às nuvens de tanta felicidade, supondo que ele estava começando a me amar, mas em seguida, a angustiosa decepção. O meu Geany, me pareceu, sussurrava o nome de alguém que não o meu. Por mais atenta que fiquei não consegui entender. Algo como Tas, tali, amor...
–Foi uma pena não ter dado para você sacar nada em relação ao nome que ele falava
–Sim, não deu, mas tive a impressão de ele ama intensamente alguém, e eu era qual esse alguém na fantasia dele. Se estiver certa e, acredito que sim, para ele ter tido esta reação comigo, não deve ser correspondido por quem ama.
–Então a mulher que ele ama tão intensamente deve ser lésbica ou louca! Não aceitar o amor de Geany? Não dá para entender.
–Mas, agora estou no mesmo barco que ele.
–Não entendi.
–Estou amando-o, Bruna, muito. Você ainda não percebeu isso? E o pior, não tenho a menor chance.
–Não penso assim irmã. Lute, agarre com unhas e dentes a menor brecha que por ventura tiver. Não estou certa da sua impressão como um todo. Ela pode até fazer algum sentido, mas para mim ficou evidente de que algo ele sentiu por você.
–Vou lutar por ele e dar tempo ao tempo. Apesar de tudo te agradeço muito pela força Bruna.
–Te agradeço muito mais irmã pelo puxão de orelha. Nele me abriu os olhos. O meu estímulo pode te levar a uma vida mais colorida, repleta de alegrias, e a sacudida que me deste, evitar que eu perca a minha.

============ESTRANHO DESTINO============

                                  Quinto capítulo.
            Sua despedida do grande amigo e família.

Entre umas e outras atividades de Geany, Alex, suas irmãs e pais, o tempo passou e, com ele, chegou o momento de voltar para casa.
–Em breve os convidarei também a fazer uma visita a minha família e estreitarmos cada vez mais os laços de amizades que inicia a nos unir. Tentou ser cortês Geany, porém sabia dos embaraços que esta visita poderia acarretar, nem tanto pelas grandes diferenças de classes sociais entre suas famílias, mas pela delicada circunstancia de expor Thais e Lenita às presenças de Carla e Bruna. Por outro lado não sabe que isto logo acontecerá e, menos ainda, sobre a inconsciente afirmação acerca dos fortes laços que existirão sim, entre pais, mães e irmãos, da forma mais intensa e inimaginável por ele.
Após as despedidas Alex levou o amigo para casa em seu carro, e Carla comenta com Bruna:
–Esqueci-me de pedir o número do celular do meu amor, e agora?
–Também me esqueci, mas com certeza Alex o tem.
–E você acha que ele vai passar para nós?
–A ti acredito que sim, entretanto vai te cobrar não ficar ligando para o amigo que ele considera um irmão, com insistência, disse Bruna.
Ao chegar a casa, já noite, é aguardado com alegria pelos pais, e com imensa ansiedade por Thais e Lenita.
–Meu filho, parece que ficamos um ano sem você!
–Acredito e compreendo mãe. A senhora não imagina a vontade que me deu de voltar logo no dia seguinte.
Ao afirmar isso percebeu Thais com os olhos úmidos e se retirando para o seu quarto.
–Bom, agora vou tomar um banho e estudar até tarde. Os exames estão muito próximos e preciso dar uma boa revisão nas matérias.
–Filho deixa isso para amanhã, pediu Mathias. Depois do seu banho e jantar nos conte como foi este seu passeio.
–Tudo bem pai, o senhor está certo.
Após ele a curiosidade da família era saber a respeito das “férias imprevistas” de Geany.
–Então filho, nos descreva este seu período de recreação, pediu Jane.
Partes dele obviamente devem ser omitidas, pois escandalizaria seus conservadores pais, e traria desgostos profundos a Thais, bem como a Lenita.
–Foi muito bom mãe. Certamente se todos, estivéssemos juntos seria ainda melhor, mas deu para relaxar e esquecer um pouco a batalha que me aguarda.
Geany relatava alguns acontecimentos aos familiares que o ouvia atentos, contudo sempre que olhava para Thais se embaraçava indisfarçavelmente, a ponto de Mathias o Perguntar:
–Você me parece nervoso filho. Houve alguma ocorrência que o desagradou?
–Não pai... Disse hesitante. Estou apenas cansado.
–Realmente você curtiu muito o Sol, pois está bastante moreno, comentou Lenita que também o perguntou: e as noites, como foram?
–Muito divertidas.
–Havia muitas garotas por lá? Insistia Lenita que deixava Thais ainda mais ansiosa e seus pais desconfortáveis, visto que percebiam ambas com os semblantes nada comuns, quais os apresentados nos seus dias a dias.
–Em todos os lugares existem muitas garotas, Lenita. Aqui mesmo tem duas. Aonde você quer chegar? Inquiriu-a Geany demonstrando-se angustiado com tanto interrogatório, para ele, constrangedor.
–Simples curiosidade. Perdoe-me se exagerei nas perguntas.
–Tudo bem. Mudemos então de assunto. Sugeriu o irmão.
Mais tarde, na hora de se recolherem, Geany no corredor do andar de cima dirigindo-se ao seu quarto, encontra Thais que saia do dela, que é comum com Lenita, e próximo a ela percebe seu olhar triste. Pararam frente um ao outro e ouviu melancólico ela o dizer com os olhos lacrimejantes:
–Senti muito a sua falta.
–Também senti a sua, irmã.
–Irmão, irmã... Sussurrou Thais olhando nos olhos de Geany e atirou-se nos braços dele, controlando o pranto que lhe afligia a Alma.
Permaneceram por breves instantes abraçados, tendo ela a cabeça apoiada em seu peito e Geany acariciando levemente seus cabelos a prometeu:
–Não ficarei novamente tanto tempo longe de casa, jamais!
–Se for por minha causa pode ficar, mas me leve sempre contigo. Não me importa quando e nem aonde vá.
–A levarei sim, mesmo porque, além da imensa saudade, não é nada bom e nem prudente ficar longe de você.
–Por que está me dizendo que também não é prudente?
–Vamos deixar de lado este detalhe, tá?
–Sim, vamos, embora penso que sei a razão dele: assédio das moças.
–Não queria que isso acontecesse, todavia não tenho como evitar.
–Compreendo, mas tem momentos que me sinto arrasada, pensando na possibilidade de algum dia você se deixar levar por estes assédios e se encantar por outra mulher.
–Jamais. Tive experiências de que isto me será impossível.
–Imagino quais foram e não tenho o menor desejo de saber acerca delas, tá?
Por favor, me deixe ficar um pouco no seu quarto conversando contigo até meu sono chegar.
–Sim, entre.
Sentados na cama de Geany Thais lhe diz:
–Quantas saudades do nosso tempo de crianças. Passávamos longas e prazerosas tardes juntos brincando e não sentia o que sinto, ao menos não tinha consciência “deste sentir”, desde os sonhos a que venho tendo, dias após completar onze anos de idade.
–Nesses teus sonhos sente sem saber como, que tudo nele vivido é sempre ao lado de uma pessoa que, embora ela tenha outro nome seja eu, e ainda, te sugere ser tão real como estamos aqui?
–Sim, por quê?
–Então me parece, vêm tendo sonhos semelhantes aos meus e, tudo indica, eles iniciaram-se praticamente ao mesmo tempo.
–Meu Deus! Geany conhece exatamente os devaneios que me sucedem neles?!
–Não posso te afirmar ainda que sejam devaneios. Se durante os esclarecimentos de um para o outro sobre eles, tudo coincidir perfeitamente, apesar de ser algo por nós desconhecido, podem ser reais, sim. Agora se não houver concordâncias, o mais provável é que sejam fantasias inconscientes nossas, a despeito de ser muito estranho terem iniciado quase que simultaneamente.
Observe como acontece comigo: nas maiorias das vezes em que vou dormir, sinto-me ansioso para encontrar a minha bela e amada mulher de pele morena, olhos azuis esverdeados, cabelos negros muitos lisos e compridos até a cintura. Nos meus sonhos estamos o maior tempo deles vestidos de branco, e acontecem todas as intimidades, entremeadas a muitos carinhos, que normalmente ocorrem entre um casal. Disse “estamos o maior tempo deles vestidos de branco”, porque quando acordo não consigo entender a causa, contudo não tenho a menor sombra de dúvida de que ela é você.
–Deus, tenha piedade de nós! –Você descreveu como me vejo no sonho. Da mesma forma, nele, estou sempre junto a um homem que me parece médico, casado comigo e o amo intensamente. Ele me chama com imenso carinho de Flávia. Tal qual a ti, quando desperto, algo lá dentro de mim me diz que você é ele.
–Então, como isso pode ser sonho? Pergunta Geany.
Thais olha para ele e o diz assustada:
–Mas, isto é loucura! Como pode haver tão intenso amor e intimidades destas naturezas entre irmãos, filhos de um mesmo pai e mãe? Já pensou na gravidade do que ocorre conosco?!
–Sim, já pensei e muito mais do que possas supor, entretanto qual a razão destas coisas acontecerem enquanto dormimos, e por que, igualmente, tenho agora a certeza absoluta de nunca nos termos vistos como irmão e irmã? Sempre nos amamos Thais, desde crianças! É impossível ocultarmos isso de nós mesmos e o pior, corremos o risco de não conseguirmos esconder este fato das pessoas mais achegadas à família, também. Penso que nossa mãe sabe e deve viver aflita por isso.
Alguma explicação deve haver para o que sucede conosco.
–Que explicação Geany? Pergunta Thais atordoada.
–Não sei, mas alguma certamente existe, do contrário, que sentido faria em tudo isto?
E tornando todos estes emaranhados de mistérios mais complicados, pressinto que a nossa irmã Lenita, de alguma forma, está também envolvida neles conosco, observa Geany.
–Acredito também nesta possibilidade. Ela parece não conseguir ocultar o grande ciúme que sente por ti. Percebeu os insistentes questionamentos dela quanto as eventuais participações de moças neste seu passeio, que acabaram me deixando aflita?
–Noto as reações de Lenita desde menina, Thais. Elas não são recentes como supões.
–Não, Geany! Exclama Thais. – Aonde chegaremos vivendo assim, neste tormento? Se não fossemos irmãos tudo estaria resolvido.
–Deixemos que a vida se encarregue de nos mostrar um caminho, um final feliz para todos nós.
Ficaram por alguns instantes sentados de frente um para o outro com suas mãos dadas, em silêncio, e olhando-se ternamente nos olhos, quando Geany a disse emocionado, emocionando-a também:
–Querida vá dormir antes que alguém nos veja assim.
–Você tem razão. Boa noite!

============ESTRANHO DESTINO============  

                                  Sexto capítulo.
                    A festa do aniversário de Márcia.

Dias depois Lenita convida seu irmão:
–Sábado à noite irei ao aniversário de uma amiga. Que tal ir comigo?
–Mas, não fui convidado irmã.
–Você é meu irmão, além do que fui autorizada pela Márcia, a aniversariante, convidar quem desejasse.
–E a Thais também vai?
–Não a consultei. Quer que a convide também?
–Quero sim. Seria bom ela ir conosco.
Lenita preferiu ser discreta e não fazer perguntas a seu irmão. Imaginava que o grande apego entre ele e Thais havia se abrandado, mas percebe que nada mudou em relação a isso e o disse:
–Pode você mesmo convidá-la, está bom?
–Obrigado Lenita, farei isso.
Convidada por Geany, Thais argumentou:
–Ih, Geany! Tenho tantos estudos para revisar nas apostilas do cursinho, porém se você quiser, vou sim.
–Gostaria que fosse.
–Resolvido. Iremos tá?
Sábado à noite. O clima festivo impera no salão de festas onde se comemora a data natalícia de Márcia. A anfitriã apresenta os três irmãos a seus pais e amigos mais íntimos.  
Agora sentados à mesa ele e as duas irmãs, Geany não percebe, da mesma forma que quando esteve na companhia de Carla, na praia, pelas mesmas razões, a admiração que causa em muitas mulheres, inclusive nas mais jovens, o que acarreta certo desconforto aos pares das simpatizantes. Eles, porém, não podem censurá-lo, pois está a todos evidente que Geany conservar-se alheio aos olhares encantados, e até mesmo voluptuosos de algumas poucas mais ousadas.
Não havia como passar despercebido por alguns presentes, sobretudo pelas suas duas irmãs, este fato que as incomodam, ao menos para Lenita, sem nenhuma causa aparente.
–Aqui está repleto de sirigaitas, comenta enciumada Thais quase generalizando, notada por Lenita que concorda plenamente com a irmã, contudo simula com a expressão de seu rosto, curiosidade pela ressalva dela.
–Mas, por que diz isso Thais? Pergunta Geany.
–Será que você não nota essas mulheres te desejando como se nunca tivessem visto homens qual você em suas vidas?
Ele já ouvira observações semelhantes por outras vezes, mas falando impetuosamente como Thais falou e, na presença de Lenita, ela deixou claro que estava ardente de ciúmes e continuado assim, poderia criar sérios constrangimentos a ambos. Ponderou preocupado com a irmã:
–Que desejem ou olhem, isso é problema delas. Penso que está dando demasiada importância a esses detalhes.
–É que essas coisas nos irritam.  Até as acompanhadas! Que gente ridícula, comenta Thais, apesar de saber ser imperioso, com vistas ao inusitado sentimento que os une, manter a qualquer preço a discrição.
Uma bela mulher se aproxima da mesa onde estão sentados, e convida Geany para dançar. Ele para não ser deselegante aceita e se dirigem ao local de danças.
Aos passos da romântica música a jovem se une a Geany provocando suspiros em outras que desejariam estar em seu lugar, mas suas irmãs observam ambos e seus olhos veem o que não exatamente acontece; eles conversando enquanto dançam, e com os lábios muitos próximos um do outro.
Ao término da música sua parceira nela insiste em continuar, usando o ardil de seus admiráveis atrativos femininos, a conversar com ele. Para a sua decepção Geany argumenta que está acompanhado e que ficaria para outra vez.
–As moças que estão na sua mesa, uma delas é sua namorada?
–Não. São minhas irmãs, responde naturalmente.
–Perdoe-me, mas não entendi. Suas irmãs são as companhias que o impedem de dançar, se divertir?
–Ninguém está me impedindo de nada, apenas estávamos, quando você me convidou para dançar, tratando de um assunto familiar, simplesmente isso. Neste sutil argumento consegue, por enquanto, se livrar da assediadora.
Geany retorna a mesa e Lenita comenta:
–Parece que uma dança não foi o suficiente. Vimos você tentando se desvencilhar e ela persistia como se fosse sua dona.
–Talvez as pessoas não ajam exatamente de modo errôneo, apenas nós, que não sei do por que, somos diferentes delas.
Márcia, a aniversariante, vendo sua amiga Lenita e irmãos tão quietos, parecendo não curtirem a festa, se achegou a eles.
–Oi gente, que desânimo é este?
–O que a faz pensar estarmos desanimados, Márcia?
–Bom, pode ser impressão minha.
–Esteja certa amiga que é.
–Tudo bem. Desejo apenas que se sintam à vontade e divirtam-se.
Agora foi a vez de Lenita ser convidada para dançar.
Do mesmo estilo da música que Geany dançou com a jovem, esta também é romântica e a sua letra sugere a descoberta do amor entre duas pessoas que precisam desesperadamente uma da outra. Geany e Thais a conhecem e gostam da melodia, pois ela emociona os enamorados.
Os dois se olharam e Thais o perguntou:
–Vamos dançar? Amo esta música.
De imediato Geany se levantou e logo estavam dançando, sob os olhares curiosos de muitas pessoas, principalmente de Lenita.
Thais sente-se flutuando nos braços do irmão e ele, feliz por estar com ela juntinha de si desejando ainda que, se fosse possível, aqueles momentos não terminassem jamais.
Aos olhos de alguns convidados que não os conhecem, formam a representação fiel de dois jovens namorados que se amam intensamente. Thais não consegue dissimular o prazer imenso, nos graciosos e lentos movimentos que faz com o seu bem delineado corpo, conduzido por Geany, como se desejasse naquele momento, externar ao mundo tudo o que sente por ele.
O coração de Geany acelerava e ele apertou Thais em seus braços, enquanto esmaecidas imagens que desfilavam na sua mente, o deixou com impressão de que algo semelhante acontecera muitas outras vezes com eles, embora em situações diferentes a de então.
Para poucos presentes que os conhecem estão diante a um quadro qual uma apresentação teatral, pois o que veem não pode de forma alguma ser real.
Para exacerbar ainda mais a surpresa dos conhecidos continuaram a dançar na musica seguinte. Ao término desta voltaram à mesa e um não conseguia olhar nos olhos do outro, já Lenita, pasma, ficou aterrorizada ao perceber que sentira ciúmes deles. Na verdade sempre sentiu desde menina, mas somente agora, após ter visto a cena que viu, conscientizou-se claramente do que vive no seu interior.
Intensificou-se o clima inusitado existente entre os irmãos.
Nas suas mentes surgiu um único pensamento:
–O que somos, e o que representamos verdadeiramente uns para os outros?
Geany, dotado de extraordinária sensibilidade, que já havia conversado com Thais sobre a questão, pressente, embora não tenha a menor noção de quando e nem como, surgirá à explicação acerca do que ocorrem entre ele, Thais e Lenita, nestes processos de seus estranhos destinos.
Márcia, uma jovem que completa nesta data dezoito anos, porém, demasiadamente madura para a sua idade, até chegou a supor que se tratava de fato de uma encenação, entretanto, observando detidamente os comportamentos deles ficou embaraçada, e mais uma vez uniu-se aos irmãos na sua mesa.
–Oi amigos, posso sentar a mesa com vocês?
–Será um grande prazer amiga, disse Lenita.


=============ESTRANHO DESTINO=============

                                            Sétimo capítulo.

Creio não ser mesmo impressão minha. Vocês não estão curtindo muito a minha festa. Parecem que vão se aquecer e, de repente, estão novamente quietinhos aqui, na mesa.
–O problema não é a festa, que além de ser a comemoração do seu aniversário, foi muito bem organizada e apenas não se diverte nela quem não quiser, disse Geany.
–Me esclareçam então, por favor, qual é o problema? Quem sabe não poderei solucioná-lo?
Os três irmãos, nada falaram.
–Preferem não me dizer. Posso opinar?
–Fique a vontade, concordou Thais.
–No meu parecer, vocês devem estar passando por alguma situação que os impedem de deixá-los à vontade.
Thais e Lenita são muito belas, só perdem para mim, riu brincando, e Geany não é apenas um lindo rapaz. Mesmo que não fosse tão bonito, seu jeito de ser e maneira de olhar clamam para si, as atenções daqueles que por ventura o observe.
Vamos nos alegrar gente! A vida é tão curta.
–Amiga você fala como se estivesse na terceira idade, comentou Lenita sorrindo.
–Terceira, quarta, para mim é uma pena que não chegue à décima.
Todos riram e aos pouco se descontraiam.
–Sei em que Lenita deseja se formar, e você Thais, qual a sua pretensão profissional, se é que ela existe, é claro?
–E como existe Márcia. Pretendo ser enfermeira.
–E o nosso amigo Geany? Desculpe-me à curiosidade.
–Já passei no vestibular de medicina e logo ingresso na faculdade.
Márcia sentiu uma reação súbita, algo como um forte calafrio, ao saber que Geany deseja ser médico. –Ele médico e Thais enfermeira! Meu Deus! Por que fiquei tão atordoada ao saber disto?
Ouviu claramente a voz Interior a alertando: – Você não conhece muito apenas os dois, a sua amiga Lenita também e, especialmente, ela.
Os três perceberam-na pálida e em intensa reflexão.
Está se sentindo bem amiga? Perguntou Lenita.
–Sim, foi uma breve indisposição. Já passou.
Ela se esforça para voltar ao normal e consegue rapidamente, graças ao grande poder do seu nobre âmago, e continua a conversar com seus “três amigos”, se dirigindo primeiramente a Geany, comentando o seu parecer sobre ele desejar ser médico:
–Concordo que seja uma excelente decisão, mas poderia ficar rico, e em pouco tempo, se fosse modelo. A julgar pelo o que vi em ti, se tornaria uma celebridade no ramo de forma meteórica.
Geany já estava entediado de tanto ouvir esta observação elogiosa.
–Nossa! Até você, amiga da onça? Perguntou brincando Lenita.
Márcia conversava enquanto sondava discretamente o que lhes iam aos íntimos.
–Por que toda essa surpresa amiga? Sou também mulher e não sou cega, se esqueceu destes detalhes?
–E você Márcia está em alguma faculdade? Perguntou Geany.
–Sim. Também de Medicina, e pretendo me especializar em Psiquiatria. É meu grande sonho exercer a Psicanálise.
–Que bom! Seremos seus três primeiros pacientes quando tiver o seu consultório. Brincou agora Thais.
–Fiquem descansados que não vou cobrar nada para deixá-los curados, falava sorrindo muito, notando que eles estavam relaxando.
–Só mesmo a minha querida amiga para quebrar os nossos gelos.
–Pois saibam que me apelidaram de navio quebra gelo.
–Está mais para um avião que um navio, comentou Geany também sorrindo.
–Tá vendo Márcia? Não é apenas Geany o “dono da festa”, você igualmente arrasa!
–Será? Que tal fazermos um teste?
Os irmãos entreolharam-se curiosos quando Márcia se levantou dizendo que voltaria em instantes.
Foi até a banda que anima a festa e pediu que tocassem músicas eletrizantes. Voltou à mesa convidando os irmãos para se unirem a ela e dançarem a vontade os quatro.
Geany, Thais e Lenita, entusiasmados pela aniversariante, concordaram.
Lenita já havia com Márcia e, Geany recentemente, dançado estes ritmos “quentes”, mas para Thais ele é novidade.
Na pista de dança se divertem como nunca, e foi uma grata descoberta para Thais e Geany. Além do entusiástico prazer pelo envolvimento com o ritmo acalorado, porém agradabilíssimo das músicas que se sucediam umas as outras sem intervalo, de certa forma, desfaziam as impressões estranhas causadas nas pessoas que os viram dançando a pouco, qual um casal de apaixonados namorados.
Já noite, as luzes claras atenuadas e a iluminação em feixes de cores diversas que deslizam ao longo do salão, mais o ritmo agitado das músicas, faziam suavizar em Thais e Geany, as sensações que sempre os buscaram um para o outro.
Embora a intensa e alegre badalação, tudo transcorria dentro da mais completa tranquilidade, já que os conservadores pais de Márcia a orientou convidar apenas os amigos mais comportados, e não permitiu de forma alguma o uso de bebidas alcoólicas, além de nortear alguns seguranças para se trajarem quais convidados e ficar, muito atentos, quanto aos possíveis usos de drogas, o que para eles representaria um ultraje à festa da filha amada.
O festejo caminha para o seu final. Os convidados iam se retirando aos abraços e renovados desejos de felicidades a Márcia e seus pais e, em pouco tempo, restavam no salão apenas os funcionários da casa, Márcia e família, Geany e irmãs, mais um reduzido números de amigos.
Agora com o ambiente todo iluminado e os três irmãos sempre juntos, Márcia pede a Geany para conversar com ele em particular.
Thais e Lenita, embora curiosas, sabem que ela é completamente distinta das fastidiosas perseguidoras de Geany.
Sentaram-se os dois a uma mesa e Márcia disse-lhe:
–Espero que não me veja como uma pessoa inoportuna. Sei que você é muito jovem qual a mim, entretanto no meu conceito, idades de vidas não é garantia alguma de que os mais velhos saibam mais acerca dela do que os mais jovens.
Geany a ouvia atentamente e suas palavras não sugeriam, apesar de também ter recentemente ingressado fase adulta, sair da boca de uma mulher tão jovem, bela, inteligentíssima, rica e muito mimada, já que é filha única e representa o maior tesouro de seus pais.  São muitos os detalhes que a faz amada quase que com idolatria por eles. Ela os encanta desde menina com a sua natural meiguice, surpreendente sensibilidade, e outros atributos que vieram ao longo dos anos se desenvolvendo de forma admirável.
–Meu novo amigo, diz Márcia, creio que temos muitas coisas em comum. Você é muito diferente em uma enormidade de particularidades, de quase todos os rapazes que conheço da nossa idade ou próxima a ela.
Permita-me perguntá-lo: – você crê que possa existir algo além desta nossa vida, sendo mais precisa, que ela continue após a que então vivemos?
Geany a olhou intimamente nos olhos se perguntado como aquela criatura, pelo menos no sentido do assunto abordado, pode ser tão semelhante a si, e lhe inspirar tão intenso e desconhecido carinho por ela?
–Minha amiga; não disponho de argumentos para convencê-la de que não vejo a questão como uma possibilidade, e sim, um fato.
–Pressentia isso Geany.
E Thais, já a sondou alguma vez a respeito?
–Qual a razão de desejar saber isso?
–Já te explicarei em instantes.
–Tudo bem. Tenho vontade, porém receio que este assunto cause algum embaraço entre nós.
–Por que, posso saber?
–Nossos pais são Católicos fervorosos e ela sempre os acompanha a igreja.
–Por ela os acompanhar a igreja não significa que não tenha a mente aberta a outras possibilidades; a Reencarnação, por exemplo.
–Sim, é verdade, mas o que exatamente deseja saber Márcia?
–Geany, há poucas horas conheci você e Thais, contudo o suficiente para perceber que ambos, por uma ou mais circunstâncias quaisquer, estão aqui, nesta vida juntos como irmãos, para reparar equívocos cometidos conscientes ou não, na existência passada, bem como pode ter sido em outras ainda precedentes e o pior, a Lenita está no mesmo barco que vocês.
–Você é Espírita e está se referindo a Reencarnação como forma de restaurar desacertos praticados em vidas anteriores?
–Sim, sou Espírita, porém não existe na Reencarnação, simplesmente o propósito de “restaurar desacertos”.  Nela atuam vários processos, sendo que dois dos principais deles são os aprendizados, e esmerar o Ente Espiritual no Caminho da Luz.
–Mas você não fez estas afirmações unicamente por ser Espírita, não?
–Não, visto que não basta ser Espírita, é necessário possuir um ou vários atributos especiais. Sou dotada dos que me foram suficientes para saber o que sei sobre vocês.
Muitas pessoas das mais diversas religiões e não religiosos têm faculdades semelhantes as minhas, e até mesmo superiores, mas certas porções delas rejeitam partes destes atributos por não se adequarem as suas crenças pessoais.
Algumas se maldizem por entenderem que “o maligno” as perturba, outras ainda as usam em proveitos próprios, inescrupulosamente. Estes últimos serão responsabilizados por estas práticas, pois os dons Espirituais devem ser usados nos auxílios aos nossos irmãos, de modos singelos.
Sei de forma superficial o que ocorre entre vocês, digamos, porque Algo ou Alguém “sopra nos meus ouvidos” quando me é imperioso saber de alguma coisa.
–Já eu, diz Geany, conheço vagamente o Espiritismo. Se te for possível me fale mais acerca dele outro dia. Tenho pouco tempo disponível, mas o assunto me interessa de forma especial.
Quanto a mim e Thais você está absolutamente certa. Amamo-nos muito e vivemos amargurados por não sabermos a razão disto e porque também nos é proibido este sentimento na condição de irmãos que somos. Em relação à Lenita sempre achei estranho o vínculo dela conosco desde nossas infâncias.
–Ela também sempre o amou, Geany, embora com menos intensidade que Thais, mas somente agora se dá conta disso.
–Minha amiga, comenta Geany com tristeza nos olhos: venho sentindo com o passar do tempo esta situação me angustiando de modo insuportável. Queria tanto viver no seio da minha família, principalmente das minhas irmãs, uma convivência normal. Têm momentos que gostaria de me afastar para bem longe de todos, pais e irmãs, mas por enquanto isto me é impossível.
–Você entende que isto resolveria o problema, não Geany?
–Sinceramente não sei, mas preciso fazer algo. Não quero passar por toda a minha vida neste martírio.
Márcia o olhava, condoída. Tão belo e jovem rapaz passando por uma situação onde a vida parece brincar, não apenas com ele, mas igualmente com outras pessoas envolvidas por destinos nada comuns.
–Você me disse que tem pouco tempo livre. Procure encontrar algum suficiente durante esta semana que entra ou na seguinte, para que possamos tentar uma solução que liberte, ou alivie a todos que estão entrelaçados nesta angustiosa circunstância.
Anote o número do meu celular, e quando este tempo “aparecer”, por favor, me avise, está bom?
–Sim, amiga, farei isso.


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                                          Oitavo capítulo.
                Todos em casa ao final do aniversário.

Já em casa Geany e suas irmãs, os três se recolhem e ele permanece antes de conseguir dormir, por mais de uma hora refletindo a respeito das afirmações de Márcia sobre os envolvimentos nada comuns entre ele e suas duas irmãs. Também surgiu na referida conversa, à grata esperança de tentativas na elucidação dos processos que os levaram ao seio de uma mesma família.
–Não existe no meu coração a menor dúvida dos vínculos de intenso amor ligando-me a Thais, mas Lenita, como, e por quê? Igualmente, qual a razão do enigmático carinho sentido por Márcia, que conheci na comemoração desse seu aniversário? Interroga-se confuso.
Com a mente cansada e, ansioso para estar com ela, finalmente adormece.
No dia seguinte, à tarde, liga para a amiga:
–Olá Márcia, poderemos nos ver amanhã?
–Sim Geany. Terei o dia atarefado, mas à noite, a partir das dezoito horas estarei livre. Tudo bem para você?
–Tudo. Irei a sua casa às dezoito horas então.
No horário marcado lá chega e é aguardado pela amiga que o convida:
–Vamos sair? Poderemos mais tarde jantar juntos.
–Para mim será um prazer.
–Vou me arrumar. Não demoro.
E não demorou mesmo. Rapidamente ela aparece e Geany fica surpreso, pois aguardar as mulheres enquanto se aprontam pode ser um suplício.
Saíram e Geany deixou-se por ela conduzido. Pararam em uma grande praça, frente a uma Igreja Católica. Sentaram-se e ele a observou olhando atentamente para a igreja.
–Não viemos para aqui casualmente, não Márcia?
–Percebeu que gosto deste lugar, Geany?
–Algo me diz que não exatamente aqui, onde estamos sentados, mas lá, no interior da igreja.
–Sim e, mais precisamente, frente ao Sagrado Altar.
–Pronunciou Sagrado Altar quase que com veneração! Surpreendeu-se Geany.
–Me assemelho a uma católica fervorosa, não?
–Sim. É esta a impressão que me deu.
–A vida é assim, estranha, repleta de mistérios e surpresas.
Você sabe que sou Espirita. Fale-me do que conhece vagamente a respeito do Espiritismo.
–Li algumas referências sobre os ensinamentos da sua religião. Parece-me que em certos segmentos dela não há perfeito consenso acerca da doutrina.
–Isto acontece também em algumas outras religiões. Antes de externar o que observo nesta falta de consenso, desejo que saiba de um conceito pessoal sobre o Espiritismo e o Espírita.
A meu ver, todo aquele que crê no Espírito e nas Reencarnações, independente de seguir esta ou aquela religião, ou nenhuma, o considero Espírita.
No sentido dos fenômenos mediúnicos, mais especificamente nas comunicações dos Espíritos com os Médiuns, com o propósito de conscientizá-los de algo, esmerar certos Espíritos no caminho do Amor, atender as súplicas dos que necessitam de ajuda, de se melhorarem como Seres em Evolução, também com o auxílio de Espíritos Superiores, acredito que ocorre algo semelhante a seguinte analogia: Colocam-se Exuberantes e Perfumadas Flores, em Exuberantes e Perfumados Jarros; flores comuns, em jarros comuns, ou seja, cada flor é compatível ao seu jarro, embora eventualmente, colocam-se flores comuns em Exuberantes e Perfumados Jarros, entretanto, Exuberantes e Perfumadas Flores, nunca em jarros comuns. Independentemente e, sugerindo um contrassenso, todas as Flores “pertencem ao mesmo Jardim” e todos os Jarros, “fabricados pelo mesmo Oleiro”.
 Vou te esclarecer agora, a luz do que venho analisando, as divergências existentes no Espiritismo, bem como as Dele com algumas outras Religiões e, vice versa.
O que mais nos entristece, membros da nossa Fraternidade, são certos seguidores de Outras, afirmarem em seus comentários que nos julgamos, praticamente de forma genérica, superiores as demais. Por outro lado também vejo com lástima, alguns seguidores das doutrinas que adotamos criticarem outros Irmãos, como se os vissem “de cima para baixo”.
Agora, as maiores censuras contra o Espiritismo como um Todo, partem de adeptos de outras Religiões, felizmente nem Todas. Igualmente já ouvi pessoas que se dizem Espíritas, maldizendo Católicos, Evangélicos... 
Particularmente penso o que está por trás de tudo isso não são verdadeiramente as Religiões ou Seitas, antes, porém, os Egos de determinadas pessoas que se julgam os donos da Verdade.
Todos poderiam viver em paz com todos, respeitando os pontos de vista, as escolhas de cada um. O que de mais Nobre o Ser Humano pode apresentar, não são suas crenças pessoais, mas ser humilde, ver seus semelhantes como irmãos, suas condutas do bem viver.
–Se assim fosse nosso mundo seria outro, amiga.
–Sim, seria, mas não percamos a Esperança, Geany.
–Seu olhar insistente sugere-me o desejo de entrar na Igreja, estou certo?
–Está. Ficará contrariado em me acompanhar?
–Absolutamente. Se você se sente bem no interior dela, devem existir razões para que assim seja.
Sentados muitos próximos ao Altar, Geany experimenta emoções “nunca” antes sentidas.
Ambos permaneceram em silêncio por mais de quarenta minutos, olhando reverentemente o Altar, e envolvidos por doce paz. Logo após eles se retiraram.
Ao saírem da Igreja, as Sublimes energias nas quais Geany estava nelas imerso foram aos poucos se desfazendo, e ele passou a ser dominado pela inquietação.
A amiga representava a perspectiva de levá-lo, nem que fosse a um fio de esperança, não lhe importava por qual via fosse, as elucidações acerca dos mistérios que envolvem ele e suas duas irmãs. Até então nada indica que Márcia reúna a menor condição de guiar seus passos por caminhos que o possa dirigir, ao porque de os três serem conduzidos ao seio de uma família como irmãos, unidos por laços conflitantes com esta circunstância.
Continuam, ao menos por enquanto, seus questionamentos se algum dia haverá explicações sobre o que angustiosamente deseja saber. De tão absorto em seus pensamentos não ouviu Márcia o convidar:
–Vamos jantar? Geany tenha paciência! Compreendo as aflições interiores que o assolam, contudo necessita de paulatinamente abrir sua mente e coração a horizontes, creio, por ti jamais vislumbrados.
Não existem meios que possam reunir de um momento para o outro, partes que consigam tornar compreensíveis, fatos acontecidos nas vidas de vocês, anterior a esta, sem ainda descartar a possibilidade, como o alertei, de haverem outros, ocorridos antes dela, desencadeando processos que perduram até o presente.
–Então este problema pode ser mais complexo do que supunha? Perguntou Geany dessolado.
–Sim meu amigo, pode. Penso que todos são solucionáveis, embora alguns deles nos pareçam impossíveis. Viva um dia de cada vez e confie. A ansiedade é obstáculo a tudo, mormente no espesso véu que deseja ver descortinado.

============ESTRANHO DESTINO============

                                   Nono capítulo.

Depois de jantarmos desejo que vá comigo a fraternidade que frequentamos, eu e minha família, tudo bem?
–Tudo Márcia.
Em pouco mais de uma hora estavam diante de um prédio que diferenciava de uma residência qualquer, apenas pela inscrição discreta e logo acima da porta de entrada: Centro Espírita André Luiz.
–A reunião de hoje não é destinada ao público, além de ela já estar terminando. Vamos entrar e aguardar o final da sessão.
No encerramento os membros presentes vão se retirando saudando Márcia e Geany ao passarem por eles e, entre os últimos a deixarem o salão que, pelo lado de fora não parecia possuir as dimensões que tem, encontram-se seus pais e dois médiuns, justamente os que ela desejava apresentar a Geany.
–Oh! Meu anjo! Disse surpreso seu pai: somente uma justa razão impediria a sua presença junto a nós.
–Sim, pai. E a justa razão está aqui, ao meu lado.
Apresentou-os Geany e ouviu o comentário de seu pai:
–Não me lembro de onde, mas conheço-o de algum lugar.
–Sim, nos conhecemos senhor Sávio. Foi no aniversário de Márcia.
–Você me parece apreensivo meu filho. Podemos ajuda-lo?
–O que estou sentindo neste lugar e na presença dos senhores, já está me sendo uma grande ajuda.
–Então venha sempre e conviva conosco os fluídos de paz e luz que emanam dos nossos irmãos, visíveis e invisíveis.
–Vou mostrar a Geany todo o salão de reuniões e logo vamos voltar com vocês. Disse Márcia.
–Fique a vontade.
Percorrendo por ele ao lado da amiga, percebe que há acomodações para mais de oitenta pessoas e paira no ambiente, além de um afável magnetismo, fragrâncias de flores.
Ao deixá-lo, um dos médiuns conhecendo a necessidade de                  Geany, pergunta a Márcia e a ele:
–Vocês não desejam conversar um pouco antes de irem?
–Sim, querido irmão Júlio, responde Márcia, mas pode ser em outra ocasião.
–Você sabe irmã Márcia que não dosamos nossos tempos para ajudar a quem precisa de auxílio. Vamos entrar para sabermos do que se trata, e da possibilidade de socorro?
–Quer que eu e sua mãe os aguardemos filha?
–Por que não acompanhemos todos unidos os relatos de Geany? Se ele não se sentir constrangido, é claro.
–Absolutamente Márcia. Ficarei muito grato aos presentes.
Sentados a grande mesa Márcia e seus pais, Geany, mais Júlio e Valter, ambos, médiuns videntes e ouvintes, fazem inicialmente uma oração e, a seguir, Geany conta toda a sua demorada história, atentamente ouvida por todos, principalmente pelos dois médiuns.
Ao finalizar, Júlio e Valter fazem cada um a sua vez, perguntas a ele. Ao término das perguntas e respostas permanecem por algum tempo em meditação e, após ela, Júlio indaga-o:
–Você consegue convencer suas irmãs a comparecem em uma reunião conosco?
–Farei todo o possível, mesmo porque é algo muito importante para nós três.
Despedem-se em fraternos abraços e Geany volta para casa.

============ESTRANHO DESTINO============

                                  Décimo capítulo.
                 O regresso à casa ao sair do Centro.

Lá chegando encontra seus pais e irmãs na sala, tendo a sensação de que por alguma causa desconhecida eles, o aguardavam, pois era mais de vinte e três horas. Raramente não se encontram recolhidos nesse horário.
Tomou banho e ao dirigir-se para seu quarto, encontra “coincidentemente” Thais e Lenita, também indo para o comum a elas e as consultou:
–Posso conversar por um instante com as duas?
–Claro, responde Thais, apreensiva.
–Venham até o meu quarto, por favor, e fechem a porta.
Nele, sentados em sua cama, Geany as pergunta:
–Ambas sabem o que acontece com nós três, certo?
Thais abaixou a cabeça em silêncio, mas Lenita o questionou:
–Sobre o que está falando Geany?
–Você sabe Lenita, nada adianta fingir que não.
Ela também silenciou e com um gesto da cabeça, concordou.
–Nunca nos sentimos como três verdadeiros irmãos e isso me angustia. Vocês se sentem confortáveis com esta situação?
–E existe algum meio de sabermos a razão disso? Perguntou Thais, observada por Lenita.
–Acredito que possa haver sim, porém depende e muito, da cooperação das duas.
–Farei até o impossível se de eu depender, apoiou Thais.
Lenita nos seus primeiros anos de criança, não reunia ainda condições de ajuizar acerca dos sentimentos que logo ao entrar na adolescência, pressente tratar-se de algo incomum em seus relacionamentos com o irmão e irmã. Instintivamente vem percebendo a partir de então, que eles em nada se assemelham aos de irmãos biológicos e, além disso, após decorrer alguns anos, tomaram proporções para ela indesejáveis.  Por todo este tempo até o presente, embora em um grau muito menor que Thais, amou e continua amando seu irmão, igualmente sentia e permanece sentindo, inveja e ciúmes dela, em função deste seu incompreendido amor.
Imaginava ainda, percebendo neste exato momento a sua infantilidade, que isto fosse algo muito íntimo seu e por todos desconhecidos. Obvio que não poderia ser, visto que demonstrou, e por várias vezes o ciúme que sente por Geany. Constata agora nitidamente o quanto iludia a si mesmo, mas não poderia iludir as pessoas. Decidiu que vai junto aos irmãos, tentar descobrir se existe algo por traz de tudo isso.
–Geany, fala Thais: sabe que eu e Lenita concordamos com a tentativa de elucidar esta problemática que nos aflige. O que propõe?
–Nos reunir em um Centro Espírita com dois médiuns videntes e ouvintes.
–Centro Espírita? Perguntaram as duas em uníssono.
–E o que te levou a acreditar que lá existe a possibilidade de obtermos respostas sobre o que sucede conosco? Perguntou Lenita.
–Estive hoje em um deles e, conversando com dois médiuns mais poucos amigos, fui orientado a levá-las comigo para que nós três juntos, formássemos elementos necessários nas pesquisas mediúnicas a respeito de quem fomos, e como vivemos em existências passadas e, dessa forma, chegar aonde pretendemos.
–Isto pode ser-nos útil, mas de quem partiu essa ideia? Questionou Thais.
–Da nossa amiga Márcia.
–Márcia! Exclama Lenita surpresa e o pergunta: ela é Espírita?
–Você que é grande amiga dela não sabia que Márcia e seus pais são Espíritas? Agora foi Geany que também surpreso a interroga.
–Não, não sabia. Ela nunca me falou nada a respeito.
–Então, estão preparadas? Inquiriu-as Geany.
–Sim, estamos, confirma Thais, porém ocultemos isso dos nossos pais, está bom?
–Tudo bem. Vou entrar em contato com a Márcia e pedi-la que marque para nós este encontro, se possível na quarta-feira da outra semana.

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