Estranho Destino-Livro Completo, (Terceira Parte).





=============ESTRANHO DESTINO=============
                            
                            Vigésimo terceiro capítulo.

                           A cirurgia que salva a vida de Valéria.

Preparados ele, Flávia e a equipe de auxiliares, “Catarina” foi conduzida para a cirurgia.
Um médico fora designado a prestar atenção máxima às reações do organismo de Valéria, no sentido de se ela voltar, por ínfima que fosse ao estado de consciência, bem como para observações visuais, e as poucas obtidas por outros meios disponíveis na época, que pudessem indicar se tudo estava ocorrendo conforme o esperado ou não.
Apesar do estado de inconsciência da paciente e a extrema debilidade física, havia probabilidade de os procedimentos cirúrgicos reverterem este quadro. O clorofórmio era naquela ocasião, naquele hospital, a “anestesia”, porém Sandro optou por usa-lo, apenas se absolutamente necessário.
Os médicos ficaram imensamente surpresos ao constatarem que ela “dormia” serenamente, e permaneceram na expectativa de até quando assim continuaria.
Sandro fez a incisão no local adequado para ter acesso ao rim do lado direito, usando os conhecimentos de então para conter hemorragias, durante todo o delicadíssimo processo operatório. Seus colegas observavam atentos os movimentos que o talentoso amigo executava sugerindo, naquele momento, estar em grande introspecção.
Chegando ao órgão lesado fez minuciosa inspeção visual nele, que evidenciava uma protuberância na forma, algo semelhante à metade de uma irregular esfera, com a dimensão estimada em dois e meio centímetros, a mais do que seria sem a existência dela.
O grande “caroço”, que se estendia para o interior do órgão, e praticamente com o mesmo tamanho que “do lado de fora”, para dificultar ainda mais o seu trabalho, era bastante vascularizado e apresentava, em um dos lados, pequena hemorragia mesmo antes de Sandro executar os cortes para a sua remoção.
Quando o fez, ele e seus auxiliares se deram conta de que a gravidade apresentada no rim era muito superior à avaliada, já que parte do tumor exibia necrose em estado avançado. Todos, com exceção de Sandro e Flávia se faziam a mesma pergunta:
–Seria possível a um ser humano ainda estar vivo em tais condições e, assim, “dormindo” com este semblante tão calmo?!
Sandro sentiu-se estranho a si mesmo, como se algo guiasse suas ações sem, entretanto, interferir eu seus pensamentos.
Não havia outra solução: retirou o rim e após os devidos processos, neste caso em particular, deu por encerrado aquela etapa.
Foi realizada a limpeza e assepsia no local, a seguir os procedimentos finais. Com tudo concluído a entregou aos cuidados pós-operatórios a outros colegas.
Seus companheiros custavam a acreditar que as funções vitais de Valéria continuavam a funcionar, ou seja, ela até o momento permanecia viva e “dormindo” aparentemente, em paz!
Para Sandro restava agora acompanhar as reações do organismo de Valéria, pois não podia descartar patologias em outras partes do corpo.
Apesar de tudo, algo lhe parecia sinalizar que o improvável aconteceria: sua paciente iria sobreviver como também ficar completamente curada.
Trouxe consigo analgésicos e drogas com propriedades antibióticas por ele preparadas, a partir de ervas, medicinais, e combinados químicos, que foram usadas em Valéria.
Após o esperado milagre, se ele adviesse, um dos grandes problemas em seu parecer, seria Valéria não ter conhecimento, até que estivesse considerada fora do risco de morte saber, quem foi o médico que a operou. Evitaria essa situação já que naquele tempo, embora alguns profissionais vissem a ocorrência como um mito e, outros poucos como algo de influência mínima, o fator psicossomático, desde longa data descoberto, através de observações entre as interações emocionais dos doentes a seus estados clínicos, era para ele algo incontestável.
Seus colegas sentiam-se ansiosos quanto ao resultado de seu trabalho, uma vez que as técnicas e medicamentos usados, em grande parte por ele mesmo desenvolvido, ou aprimoradas, poderiam ser anexados aos conhecimentos dos demais.
Em relação à cirurgia tudo havia terminado e Sandro, ao lado de Flávia, pouco tempo depois foi ao encontro de “Cecilia” que o perguntou angustiada:
–Como está minha mãe, ela vai ficar curada?
–Calma minha filha! Pediu-a Sandro. Não te disse que ela seria salva se fosse da vontade de Deus? Confie nEle com todo o seu coração, e aceite seja qual for, a Sua vontade.
–Por favor, deixe-me vê-la.
–Faremos isso por você, mas de longe e muito brevemente, está bom?
Sua mãe ficará em uma acomodação especial para pacientes na condição dela, com todas as devidas atenções de médicos e enfermeiras, não podendo receber visitas pelo tempo que se fizer necessário e você precisa ter paciência.
Enquanto ela não voltar para a enfermaria você poderá ficar conosco na casa onde estamos hospedados.
“Cecilia” os agradeceu pelo incompreendido carinho deles para com ela e aceitou, pois não tinha mesmo onde ficar.
Flávia, sabendo que ficaria ao menos por alguns dias ao lado da filha amada, disse-a:
–Você já é uma moça “Cecilia”. Será algum problema ficar na casa que estamos alojados, só, enquanto eu e o Sandro trabalhamos? À tardinha voltaremos e ficaremos todos juntos até as manhãs dos dias seguintes, pode ser?
–Como iria recusar uma benevolência desta senhora Flávia? Fica descansada que deixarei a casa sempre arrumada e também sei cozinhar muito bem.
–Por favor, querida não! Desejamos ajudá-la, apenas isso, está bem? Se você sabe mesmo cozinhar e não duvido, faça unicamente os seus almoços, pois muito antes do jantar estaremos lá e cuidarei de tudo. Agora pegue os seus pertences e de sua mãe e vamos para a nossa temporária casa.
Por volta das dezessete horas e trinta minutos daquele mesmo dia, Sandro e Flávia estão em casa. Ele foi tomar banho e Flávia ficou conversando com “Cecilia” até que chegasse a sua vez.
Sandro pronto Flávia foi também ao banho e quando voltou à sala, em trajes completamente distintos dos que usava no trabalho “Cecilia” a ficou olhando, perplexa.
–O que houve “Cecilia”, você me parece assombrada?
–Talvez mais que isso senhora Flávia! Como é possível a senhora ser tão idêntica a mim? Já havia percebido a semelhança entre nossos rostos, mas agora vejo que são iguais.
Flávia comenta com os olhos lacrimejantes:
–Bondade sua filha querida! Posso ter sido qual a ti quando tinha a sua idade, mas já se passou tanto tempo...
–Mas continua muito linda! Creio se qualquer pessoa que trabalha com os dois nunca a tivesse visto, como a estou vendo, acreditaria ser a senhora a enfermeira Flávia!
O doutor Sandro também é muito bonito e parece a amar intensamente.
Sandro que controlava com todas as suas forças o pranto, a disse sem conseguir conter a emoção, e abafar a voz que fluiu de seu interior de forma irrefreada.
A Flávia e você são o grande tesouro que Deus concedeu a este humilde servo.
–Eu também, por quê? Pergunta “Cecilia” com o coração acelerado.
Sandro tenta dissimular, mas ela percebe que existe algo de muito estranho no que ele acabou de afirmar.
–É força de expressão “Cecilia”! Desejaríamos tanto termos uma filha como você!
–Mas o senhor me incluiu com todas as letras, a sua esposa, como seu maior tesouro, a Deus lhe dado.
Ele ficou muito triste e embaraçado sem saber o que responder. Flávia, apesar de seu coração oprimido, de imediato tentou contornar a situação, pois ficou claro que “Cecilia”, era muito mais inteligente e observadora, que eles imaginavam.
–Minha filha pode me ajudar no preparo do nosso jantar?
Ela foi, porém com uma singular sensação no seu âmago de que existiu um elo muito estreito entre os três, e que ele, pelo menos fisicamente para ambos, fora rompido de forma extremamente grave.   Este sentimento, doravante, jamais a abandonaria.
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Sandro e Flávia continuaram trabalhando em outros casos no horário das oito às dezessete horas, e sempre sendo informados de como estava reagindo o organismo da sua paciente.
Não sentiu surpresa ao ser, durante os dois dias que se seguiram a cirurgia, notificado de que ela permanecia inconsciente, porém respirando de forma próxima a normal.
No terceiro dia, chegando às nove horas, um médico a examinava quando, para seu espanto ela abriu os olhos e, lúcida, todavia com a voz muito débil, perguntou onde estava sua filha.
–Ela está bem e aguardando pelo seu pronto restabelecimento para poder ficar na sua companhia.
–Por Deus doutor, deixa-me vê-la.
–Vou primeiro consultar o médico que a operou para saber se ele autoriza ela vir até a senhora. Por favor, aguarde.
Sandro que ao lado de Flávia atendia um enfermo, viu seu colega com a aparência de incrédulo, pedindo a sua atenção:
–Sandro, ela está consciente e aparentemente bem, em relação ao dia da sua entrada, e roga pela presença da filha.
Sandro e Flávia se abraçam, e em silêncio agradecem a Deus por atender as suas súplicas.  Pede a sua esposa para ir buscar “Cecilia”, e solicita ao colega avisar a “Catarina” que espere, pois no máximo em meia hora ela veria a filha.
Flávia, sentindo simultaneamente alegria e tristeza, foi ao encontro de Sabina.
Percebendo Flávia chegando muito cedo e com a aparência triste, Sabina chora copiosamente e a pergunta com a voz embargada:
–A senhora veio me trazer a notícia da morte da minha mãe, não é isso?
Flávia a abraça com indescritível ternura e vendo tamanho desespero nos olhos dela, demonstrando o quanto ama “Catarina”, disse-lhe com ardentes lágrimas descendo dos seus:
–Não minha filha querida, sua mãe está viva e deseja a ver. Ela vai ficar boa, confie!
Sabina, inquieta, quis saber:
–Mas, então qual o motivo da senhora está tão triste e chorando?
–Por felicidade meu Anjo! Estou muito feliz por você.
Ela ainda que, se aproximando do final da adolescência possuía e, como foi a vossa irmã Márcia, que muitos dentre vós sabeis ser o instrumento de um Espirito consideravelmente evoluído, muitíssimo acima da média dos entes imateriais que animam os seres humanos do presente, não aceitava de forma alguma que as reações de Sandro e Flávia para com ela, fossem algo absolutamente normal, e a disse com veemência:
–Não é possível! Alguma coisa de muito grave a senhora e seu marido ocultam de mim! Os dois me amam como se eu fosse filha de vocês. Seus olhares e o imenso carinho por mim denunciam isso muito claramente.
–Nós te amamos sim, muito, mas não sabemos a razão disso. Mentiu Flávia para não a atordoar ainda mais e acrescentou: – têm coisas inexplicáveis nesta vida, querida!
Vamos lá, ver a sua mãe?
Chegando ao hospital Sandro orienta outra enfermeira para que “Cecilia” pudesse ver a mãe, mas que permanecesse a três passos dela, e por apenas cinco minutos.
Com exceção de Sandro e Flávia, o quadro clínico de Valéria surpreendia seus companheiros e logo começou a se alimentar. Ao fim da primeira semana, após recobrar a consciência, estava novamente na enfermaria de onde foi conduzida para ser operada e, na segunda, considerada, pelos assistentes de Sandro, não mais em risco de morte. No décimo quinto dia Sandro avisou ao colega mais experiente do grupo que com ele cuidou de “Catarina”, a necessidade de examiná-la e precisava do auxílio dele.
Com os mesmos utensílios que normalmente utilizava no rosto, cabeça e mãos, durante as cirurgias, além dos óculos que na época do sequestro de Sabina não usava, foi observar Valéria.
Leu atentamente os pareceres médicos anotados, pediu a enfermeira os resultados dos últimos exames disponíveis, e pequena amostra da urina. Verificou os dados encontrados nos exames e, em seguida, observou detidamente a coloração dela, depois a aproximou das suas narinas e sentiu os odores caraterísticos, segundo a sua interpretação, de que tudo estava se encaminhando para um final feliz.
Após estes atos, com as ajudas do colega e da enfermeira, colocou “Catarina” em uma posição mais confortável possível, apalpou a região do rim que restou e de todo abdômen, sobretudo onde se situam a bexiga e o fígado, concluindo, ao menos pelos toques, não haverem indícios de problemas nas áreas examinadas.
Iria aguardar por mais seis dias, aproveitando que ela ainda estaria em um hospital para se revelar, estudar suas reações e, segundo elas, lhe oferecer propostas que apenas uma Alma generosa a poderia fazer. Agirá de acordo com a nobreza de seu coração, pois se assim não fosse, Valéria certamente perderia a guarda de “Cecília”, além de ser presa em função dos graves delitos que cometeu, ao sequestrar sua legítima filha e as trocas ilegais de identidades.
Durante este espaço de tempo, da saída de “Catarina” do âmbito da terapia intensiva, até apresenta-se a enferma, Sandro e Flávia foram trabalhar em outro setor, distante da presença dela. Antes, porém, muito cuidadosamente, conversaram com “Cecilia”, explicando-a que foram deslocados para outro local por determinação do administrador, todavia estavam acompanhando a boa evolução do estado de saúde de sua mãe, e que iriam se despedir delas no momento da alta.
Obvio que “Cecilia” não acreditou nesta história e ficou ainda mais desconfiada, todavia nada comentou e os pediu:
–Posso, sempre que possível, vir vista-los?
–Sim querida, pode. Será um imenso prazer para nós!
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O dia chegou. Sandro usando apenas a máscara e sem os óculos, pediu ao mesmo colega da vez anterior que a conduzisse a uma sala, a fim de conversar com ela na presença do amigo.
Ambos chegaram à sala ideal para os propósitos de Sandro. Nela havia uma mesa com três cadeiras: duas aos seus lados e uma terceira, à frente, que estava desocupada, mais equipamentos normalmente usados numa sala onde médicos atendem pacientes.
O colega de Sandro pediu a Valéria para sentar-se na cadeira posicionada em uma das laterais da mesa, sentou-se na do lado oposto e, nada mais fez.
Valéria o perguntou:
–Pensei que fosse me examinar doutor! Aconteceu alguma coisa? O senhor me parece preocupado!
–Sim, estou preocupado, mas não exatamente com o seu estado físico.
–Não estou entendendo! Está preocupado com o que então?


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                             Vigésimo quarto capítulo.

           
Ouviram dois toques suaves na porta e Sandro entrou, porém sem ser ainda por ela reconhecido.
Sentou-se na cadeira desocupada, cumprimentou o colega e, em seguida, a Valéria:
–Bom dia senhora “Catarina”.
–Bom dia doutor.
No ato de cumprimentá-lo, olhando em seus olhos, estremeceu:
–Meu Deus! Conheço este olhar!
Assustada, o ouve:
–Peço-a que mantenha a calma, pois ninguém pretende lhe prejudicar em nada.
Segurou suavemente as duas mãos dela que tremiam muito, perguntando-a:
–Pela sua reação algo em mim a faz lembrar certa pessoa, não?
Antes que ela o respondesse, o outro médico a diz:
–Ele é o responsável por estar viva senhora “Catarina”, e com excelentes prognósticos de continuar vivendo normalmente. Por favor, mantenha-se calma e o ouça com o coração aberto.
Sandro retirou a máscara e, apesar de permanecer ele e sua esposa por dezesseis anos sofrendo com intensas saudades a ausência da filha amada, pouca coisa mudou em sua fisionomia.
Ao ver por completo o rosto dele, Valéria tenta ocultar o seu com ambas as mãos, e chora desesperadamente.
–Pelo amor de Deus doutor Sandro me perdoa! Sei que o meu ato foi uma monstruosidade contra o senhor e a senhora Flávia, mas por Deus creia-me, não foi a minha intenção destruir suas vidas. Amo Sabina desde o primeiro instante em que a vi. Não sei explicar o porquê desse amor, mas ele aconteceu, de verdade.
–Tranquilize-se Valéria não vamos fazer-lhe mal algum, apenas desejamos te propor algo.
–Sei. Tirar a Sabina de mim, não é isso?
–Não, não é isso.
–Não?! Perguntou-o atônita.
–Te peço que vá trabalhar em nossa casa, você e a Sabina. Terá um bom salário e acomodações pelos serviços que nos prestar.
Eu e a Flávia prometemos nunca a revelar este segredo, que ficará apenas entre nós. Quando ela se casar certamente irá embora, porém pelo nosso desejo, primeiro estudaria, caso fosse da vontade dela, e poderia continuar estudando após se unir a alguém, se isto porventura acontecesse antes de ela se formar em alguma carreira profissional. Se ainda ao atingir a maioridade, e/ou se casando a quiser ao seu lado, e as circunstâncias da vida forem a isto favorável, assim será.
–Como o senhor e a dona Flávia consegue ter piedade de mim?
–Não é exatamente por você que faremos isso e sim por nossa filha, embora não sintamos ódio em nossos corações pelo o que fez conosco.
–Mas, os vizinhos se lembrarão de mim e poderão me matar.
–Não moramos mais na mesma casa.
–E o meu marido, se ele me reconhecer em algum lugar?
–Seu marido faleceu há dois anos.
–Farei tudo o que desejar doutor, apenas lhe imploro, deixe-me continuar perto de Sabina.
–Continuará, mas para que isso se torne efetivo, será fundamental que desfaça um dos seus grandes erros. Se o conseguiu cometer, repará-lo será problema seu: retorne as identidades legais sua e da minha filha.
–Isso não me é impossível, apesar extremamente difícil agora, pois estou na penúria.
–Sei, precisa de boa soma em dinheiro para desfazer o que fez na primeira vez, de modo ilícito, estou certo?
–Sim, doutor, está.
–A darei o necessário, mas descontarei aos poucos, tudo nos seus salários, está de acordo?
–Sim, estou, e muito grata também.
Complexo será explicar o porquê deste meu ato a Sabina, porém pedirei orientação a Deus. Ele provou em tudo o que aconteceu recentemente, a Sua Misericórdia e Justiça. Também me auxiliará, acredito, em uma radical decisão que resolvi neste momento, tomar.
–Posso saber qual?
–Contar a ela toda a verdade.
–E as consequências disso, por acaso sabe quais serão?
–Não sei doutor, mas seja qual for à reação imediata dela ocultar a verdade poderá ser ainda pior. Sabina não é tola de concordar com as trocas dos nossos nomes sem antes questionar-me sobre a legalidade disso, e as razões que me levaram a assim proceder.  Teria obviamente que mentir inventando uma história qualquer e claro, vivendo, todos juntos, cedo ou tarde ela descobriria que seu novo sobrenome é idêntico ao do senhor e da dona Flávia, e o meu, a despeito de ser outro nome, o sobrenome também em nada se assemelharia ao atual dela. Certamente vinculará a este fato as suas bondades para conosco, dando-nos amparo, pois antes de adoecer vivíamos na miséria, podendo por si mesma desvendar tudo, existindo assim, a possibilidade de passar a me odiar. Vou orar a Deus para que este infeliz episódio em nossas vidas acabe bem para todos nós.
Terminada a conversa Valeria voltou ao seu leito onde a aguardava, Sabina.
–Então mãe, o que o médico disse a senhora?
–Que estou me recuperando muito bem, para eu intensificar meus “passeios” pelos corredores do hospital, e que não demora muito a me darem alta.
–Que bom, mãe, vamos voltar para casa!
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Após refletir muito por dois dias seguidos e a consciência martirizada, apesar das suas súplicas ao Altíssimo, o medo a torturava impiedosamente. Valéria muniu-se de toda coragem possível e falou à Sabina:
–Filha, você sabe o quanto a amo e as imensas dificuldades que passamos juntas, não é verdade?
–Sei mãe, claro!
–Vou agora te contar uma coisa, mas quero que saiba; dou a minha vida por ti, se necessário for.
De fato. A afirmação de Valéria era verdadeira, pois por mais de seis meses seguidos não se alimentava da forma mínima possível necessária ao perfeito funcionamento de seu organismo. Praticamente, neste período mais crítico de suas vidas, Sabina quem trabalhava e era mísera a remuneração que recebia, já que “sua mãe” não conseguia emprego em lugar algum. Valéria economizava o que podia para que “sua filha” tivesse o que comer. Ela apenas comia às escondidas caso algo sobrasse. Sempre dizia a Sabina que já havia almoçado ou jantado. Aconteceu o que aconteceu, porém poderia mesmo ter morrido de inanição, uma vez que graves problemas físicos adviriam da sua severa desnutrição.
O que estava então preste a contar a Sabina somente foi possível, porque assim fora “decretado” nos destinos dela, Sabina, Sandro e Flávia.

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                             Vigésimo quinto capítulo.

Que coisa, mãe? Perguntou Sabina apreensiva, a julgar pela expressão do rosto de Valéria, naquele momento.
           –Cometi graves maldades na minha vida, porém foi por te amar. Não quero te perder, querida.
–Não consigo entender. Como pode ter feito maldades por amor? A senhora fala como se tivesse matado alguém.
–Existem muitos modos de matar pessoas sem tirarmos as vida delas.
–Mãe, a senhora está me agoniando! Fala logo o que tem a me dizer.
–Lembra quando aquela enfermeira ficou desesperada ao ver o meu rosto, segundo me disseram?
–Sim. Ela é esposa do doutor Sandro, o médico que salvou a sua vida.
–Ela quem é a sua verdadeira mãe, e o doutor Sandro, o seu pai.
Sabina entrou em desespero e chorava convulsivamente gritando:
–Mãe, a senhora ficou louca?!
A seguir fugiu correndo alucinada e, na saída do hospital, é vista por Flávia e Sandro que nele iam entrar, antes de ela passar por ambos.
Sandro de imediato intuiu a razão do gesto de Sabina. Quando ela, completamente desnorteada e chorando intensamente, se aproximou deles, temendo pela vida da sua filha, segurou-a dizendo com muita ternura:
–Não se desespere filha querida, abraçando-a a seguir.
Flávia com incontida emoção se enlaça aos dois, também chorando muito.
–Pelo amor de Deus, me socorram, não aguento mais! Disse Sabina desesperada.
–Acalme-se anjo, nosso Deus está conosco!
Venha, por favor, comigo e a sua mãe.
Sandro decidiu ir ao administrador do hospital pedir dispensa por aquele restante do dia. Antes de se encaminhar ao escritório dele, orientou Flávia que solicitasse a uma enfermeira do setor onde se encontrava “Catarina”, avisando-a que “Cecilia” iria ficar com eles e a noite voltaria.
Providências tomadas, já com Sabina mais calma, saíram os três para conversarem em uma das muitas praças que existiam no lugar.
Sentada em um dos bancos da mais próxima do hospital, entre Sandro e Flávia, ela ouviu sua verdadeira mãe lhe falar:
–Sabemos o que está passando querida, do seu conflito mental mesclado à intensa tristeza, mas, por favor, imagine o quanto sofremos eu e seu pai, e também como está sofrendo a mulher que te criou com tanto carinho e sacrifício!
Chorando baixinho, contudo já aparentando fortes sinais de que estava recuperando a lucidez mental, apesar da cruel experiência emocional sofrida, demonstrou que realmente é filha de ambos, analisando o acontecido e aos dois falou muito triste, é verdade, porém, segura:
–Quando chegaram para verem a minha mãe, tive a sensação de que não me eram estranhos, e me deu um grande aperto no coração ao ver a senhora gritar com tamanho desespero, sugerindo que algo de muito grave passou pela sua cabeça ao ver o rosto dela. Senti imensa piedade pela senhora ao vê-la naquela condição, desejando abraçá-la e a proteger, mas a angústia pelo estado de saúde muito grave da minha mãe, se sobrepôs a qualquer outro sentimento naquele instante.
Estou ciente da veracidade desta história, pois ela mesma me contou. Se não soubesse o que agora sei não haveria sentido algum nas impressionantes ocorrências de fatos que vi e vivi, sobretudo aos seus lados. Achava demasiadamente estranhas as incríveis coisas que aconteceram e, principalmente a coincidência física entre eu e a senhora, quase em tudo, para serem meros acasos. Apenas não entendo como conseguem perdoá-la pela atrocidade que fez com ambos, e que me afetou também.
–Sabina...
–Sabina? A senhora me chamou de Sabina?! Então até o meu nome é falso?
–Deixa-me te abraçar minha filha amada! Sossega o teu coração nos meus braços e ao lado de seu pai.
Ela se sentiu qual a uma menininha desamparada que precisava tanto de carinho como aconchego e os estava tendo, junto a Sandro e Flávia, que se revelavam dois novos amores em sua vida. Seriam eles mais intensos que o sentido por sua mãe, se vivesse doravante em seus convívios? Não sabe como igualmente não sabe que viverá sim, ao menos por bom tempo a seus lados, e que somente o mesmo tempo poderá responder a sua pergunta.
–Assim que voltar a companhia da sua mãe ela terá muitas coisas para te dizer, alertou-a Sandro.
–Minha mãe!... Sussurrou baixinho Sabina.
À noite, após jantar com Sandro e Flávia, já que fora surpreendente para ambos o apetite e o aparente bem estar dela, Sabina volta para a companhia de Valéria.
–Filha, disse ela, fiquei aflita ao vê-la naquele estado, e passei mal quando saiu daqui correndo e chorando muito.
–Mas, parece-me bem.
–Um médico me socorreu e pouco depois apareceu uma enfermeira dizendo-me que estavas em segurança, a partir de então consegui me acalmar.
–Também fui socorrida pelo doutor Sandro e a enfermeira Flávia.
–Seus pais, querida.
–Sim. Não tenho agora a menor dúvida de que eles são meus pais, de verdade.
–E o que te deu tanta certeza disso, além da minha revelação?
–O amor e o intraduzível carinho deles por mim, aliada a convicção absoluta que brotou de dentro do meu ser, tudo isso sem levar em conta os olhos azuis esverdeados dela, idênticos aos meus e a extraordinária semelhança dos nossos rostos.
Bem que achei muito estranho, quando fiquei na casa em que eles estão hospedados, de como à senhora Flávia se perece comigo em quase tudo. Os cabelos longos e negros, a altura e até mesmo certas “manias” que a senhora sempre me chamou a atenção por elas, a minha mãe biológica as têm. Também nunca me convenci da história que me contou sobre o meu pai que, segundo disse, faleceu quando eu era muito nova.
–Porque nunca se convenceu?
–Não sei! Sempre a amei e, apesar de tudo continuo a amando, porém algo me dizia que estava, por algum motivo qualquer, mentindo, e meu pai continuava vivo.
–Te compreendo filha. Existem muitos eventos estranhos nos nossos destinos: eu a amar intensamente desde que te vi ainda bebê, a ponto de sequestra-la, contrair muitos anos depois uma doença extremamente grave e, justamente seus pais aparecerem para salvar a minha vida, são apenas alguns deles.
Conte-me filha, te disseram alguma coisa?
–Mais do que a senhora possa imaginar, se bem que em relação ao amor nem precisariam me dizer nada, seus olhares falavam por eles.
–Pode me descrever um pouco sobre o que falaram?
–Da dolorosa saudade de mim por todos estes longos anos, que o meu nome não é Cecília e sim Sabina e o seu é Valéria, e me sequestrou quando eu tinha nove meses.
–Não te disseram mais nada?
–A senhora por acaso acha tudo isso, pouco?
–Não filha! É que tudo indica, não deixaram você ciente da exigência, e depois da proposta que me foi feita.
–Não. Que exigência e proposta foram estas?
–Primeiro foi à proposta. O doutor Sandro convidou-nos, após eu estar bem de saúde, que trabalhasse na casa deles, sendo recompensada com acomodações e um bom salário, mas sempre com você junto a nós, até o dia em que entendesse ter a sua própria vida.
Foi também de nobreza que me levou as lágrimas, sugerido, que não seria necessário te contar a verdade, apenas a queria ao seu lado e da dona Flávia. Além disso, compreendi ser justa e prudente, a exigência dos retornos as nossas verdadeiras identidades, visto que elas adulteradas poderia ter trazer problemas futuros.
–Não te obrigou a me dizer a verdade e, menos ainda, que a senhora não seria denunciada as autoridades?
–Não filha, nada disso.
–Duas pessoas quais a eles jamais deveriam ser submetidas à tamanha desumanidade, disse Sabina chorando.
Valéria também chorando tenta se justificar e propõe:
–Fiz isso por amor a ti Sabina, mas estou disposta a desaparecer da tua presença, pois creio que serei por toda a minha vida, motivo de vergonha para você.
–Faça apenas o que ele te pediu e deixe a vida se encarregar dos nossos destinos.
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Pela segunda e derradeira vez retornaram as reminiscências de dois pretéritos, onde os oito personagens vividos por Geany, Thais, Lenita e Márcia, veem por concluídas suas passagens trágicas por este mundo, no qual foram pelos processos da vida, ligados uns aos outros sendo os três irmãos, os mais padecidos. Neste momento de mãos dadas aos dois médiuns, Júlio e Valter, têm inundadas nas partes frontais superiores de seus corpos, suas vestes, pelas abundantes lágrimas que rolaram sobre elas durante estas últimas lembranças.
Júlio, servindo de instrumento a uma entidade Superior, os fala:
–Será necessário aos que vivem por enquanto sob o mesmo teto, paulatinamente se conscientizarem de que a vida continua, e que ainda precisam se prover de forças e bom senso, para não apenas compreenderem, mas igualmente aceitarem do fundo de seus corações, os rompimentos dos laços que nas atuais circunstâncias, são incompatíveis aos de viverem como irmãos consanguíneos.
Eles deixaram marcas profundas, é verdade, porém tiveram as suas razões de ser, e viverem como vivem, são ainda consequências, que poderão ser as finais e mais brandas delas.
Jamais se esqueçam de uma das máximas da vida: a forma como ela se nos apresentará amanhã, depende essencialmente da forma como a esculpimos hoje.
A irmã Márcia, como agora sabem, esteve entre vocês, Geany, Thais e Lenita, igualmente sofrendo, conduto por missão a ela concedida e se encontra novamente em seus convívios para o cumprimento final dela, que é o de ajudá-los a superar as dificuldades que ainda enfrentarão.
Continuem, os exorto, nas companhias dos que trazem dentro de si a convicção inabalável de que as passagens de todos por este, ou outros mundos, são condições fundamentais as evoluções espirituais de cada ser, até que se concretize a união final, destino Sagrado de todas as criaturas.

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                              Vigésimo sexto capítulo.

Encerrada a reunião Márcia convida os irmãos a jantarem com ela.
Durante a refeição fala carinhosamente para descontraí-los:
–Que tal agora vocês esquecerem de que foram por duas vezes, meus pais biológicos ou de corações?
Vejamos doravante, dentro do que nos será possível nesta existência, através de diferentes prismas, outros horizontes ao sabor de destinos diversos, que poderão nos levar a novos amores e deixemos os desígnios da vida se encarregar do amanhã de todos nós.
Provavelmente os irmãos, mais tarde, conseguirão entender da forma absolutamente clara, o que Márcia quis dizer com: “dentro do que nos será possível”, pois realmente nem tudo será.
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Agora estão em casa, Thais, Lenita e Geany. Quando ele se preparava para dormir ouviu toques suaves na porta do seu quarto e foi atender.
–Podemos conversar um pouco antes de o meu sono chegar? Perguntou Thais.
–Tudo bem, entre.
–Geany, pensei muito em tudo o que aconteceu nas duas reuniões onde voltamos aos passados comuns meus, seus, de Lenita e Márcia, como também em tudo o que ela nos falou durante o jantar.
Para a Lenita, a julgar pelos comportamentos atuais dela, não me parece mais tão atada a ti como ainda continuo.
–Também venho observando isto nela, e nós Thais, precisamos ser fortes para aceitarmos a nossa atual realidade.
Não sei, na verdade não acredito que nos seja possível, desatarmos os laços de amor entre homem e mulher que fomos por duas vezes, talvez até mais. Os que ainda perseveram em nos ligar nas mesmas condições, materiais e espirituais, nas presentes circunstâncias, os materiais precisaremos desatar. Se for dos nossos merecimentos poderemos nos reencontrar em futuras existências, visto que sabemos das existências delas, todavia isso somente Deus sabe.
–Se você acha isto possível, por favor, me ajude, pois creio que não conseguirei.
–Penso que conseguirá sim. Embora saiba que vai doer muito em nós, o mais sensato a fazer é abrir seu coração a novas possibilidades “amorosas”.
–Sei. Fazer o que você está fazendo, não é verdade?
–O que estou fazendo Thais?
–Geany olhe nos meus olhos e negue que não tem relacionamento com alguma mulher, muito provavelmente irmã do Alex?
Ele não conseguindo olhar nos olhos de Thais abaixou a cabeça em silêncio.
–Você disse a nossa mãe, quando voltou da visita que fez ao seu amigo, que no dia seguinte a lá ter chegado te deu vontade de voltar, não foi? Por quê? Falou-me que já teve experiência da impossibilidade de outra mulher em sua vida, não? Será que não mesmo? Depois desta não aconteceu mais nenhuma, nada superficial?
Saiu num sábado pela manhã voltando no domingo à noite, e o vi descendo de um carro com os vidros escuros, certamente de uma mulher e, não duvido pelo que te conheço, está paulatinamente abrindo o seu coração a uma única, da qual estou morrendo de inveja e ciúmes.
Você ainda não tinha feito isso Geany, antes deste seu passeio na casa do Alex, você não era assim!
Creio que depois da sua última noite passada fora de casa, não te será difícil desatar de vez, os laços materiais que por enquanto nos causam fortes atrações físicas um pelo outro, apesar de sermos irmãos verdadeiros.
Perdoa-me querido, mas de acordo com o que ouvimos dos irmãos que relataram as nossas duas experiências juntos, e o que   sentimos, nos amamos muito em ambas e, na anterior a esta, seus acontecimentos continuam muito vivos dentro de mim.
Não temos como negar estes fatos Geany e ninguém neste mundo conhece-os melhor que nós, nem mesmo a Márcia e os dois médiuns, pois eles sabem, mas apenas eu e você vivemos nossos amores em todas as suas plenitudes. Por mais que tente ou deseje não me sinto a Thais, a sua irmã, e sim a Flávia, o seu grande amor. Também não acredito que seja diferente contigo porque percebo que seu amor por mim continua intensamente vivo no seu interior.
–De fato continua, sendo-me difícil crer que um dia ele terminará, confirma Geany. Quanto ao que disse querida serei honesto contigo; estou sim, tentando fazer o que te propus fazer também, e a mulher é uma das duas irmãs do Alex, de nome Carla.
Agora, penso que ambos os médiuns e a Márcia sabem sim, da dificuldade extrema, mesmo da impossibilidade de nos afastarmos espiritualmente um do outro. Um dos médiuns nos disse, certamente em consonância com o outro, sobre os “rompimentos dos laços que nas atuais circunstâncias são incompatíveis aos de vivermos como irmãos consanguíneos”. Para mim estão claro que ele se referiu aos materiais, não os espirituais.
Estamos em um beco sem saída Thais e precisamos nos esforçar querida. Necessitamos encontrar meios de mesmo aos poucos, desfazer estes vínculos materiais que insistem em nos unir.
Termos um relacionamento de homem e mulher é mesmo impraticável, mas nunca acreditarei no fim do nosso amor. Foi isso que sutilmente o médium nos disse e creio que a Márcia vê a questão da mesma forma.
Uma de duas coisas nos será forçoso decidir: vivermos por toda a nossa vida de forma solitária, o que nos representará um perigo em potencial, e não apenas nós sabemos disso, como também assim faremos pessoas que tanto amamos sofrer, e outras que igualmente nos amam passarem pelo mesmo martírio, sabe a que estou me referindo não?
–Sim, sei. A nossa única saída é mesmo aceitarmos as sugestões sutilmente indicadas.
Já pensei em alguns momentos fazer o mesmo que você vem fazendo, mesmo antes desta última reunião, porém me falta coragem. Sentir os envolvimentos físicos com outro homem sem que haja amor, creio que não vou consegui Geany, mesmo que ele mereça toda a minha atenção e carinho.
–Não te é possível afirmar isso sem nunca ter tentado Thais.
–Está certo, vou tentar. Dá-me um abraço antes de eu ir dormir?
Geany abraçou sua irmã e sentiu neste abraço ela tentando unir seu rosto ao dele, em uma busca desesperada por algo proibido aos dois. Também “o Sandro” muito desperto dentro dele desejava ardentemente reviver o que passou, deixando Geany igualmente sem forças e ele clamou por ajuda dizendo a Thais:
–Thais querida não faça isso, não podemos...
As lágrimas desciam dos olhos de ambos pela dor da saudade do que representaram e continuam representando um para o outro, e sentiam que tudo estava se encaminhando para uma pausa demasiadamente longa e sofrida para os dois, mas não havia alternativa. Num gesto de desesperança Thais o beijou apaixonadamente sendo de forma plena correspondida, porém sabiam que tudo deveria terminar o mais breve possível, já que o arrebatado beijo poderia ali mesmo, levá-los a um “triste desastre”. Jamais se esquecerão destes breves, contudo, inesquecíveis momentos.
Movidos por socorros interiores ambos perceberam que poderiam, nem que fosse com dificuldade, refrear os impulsos de Sandro e Flávia pelo tempo que for necessário e Thais o disse:
–Vamos tentar cumprir nossos destinos Geany, não resistiremos mais viver assim, além do que ouvimos: nosso amanhã depende do hoje, e não desejo te perder, nunca! Aceitemos no fundo dos nossos corações, a Graça que nos foi concedida!
Foram cada um para sua cama e custaram a dormir, refletindo, primeiramente qual um só pensamento: – não há mesmo outra solução. Os caminhos que deveremos percorrer nos deixarão tristes, também os ciúmes que sentiremos um pelo outro nos será inevitáveis.
Após estes pensamentos turbilhões de outros invadiram suas mentes, sendo que Sandro e Flávia traziam cruciantes saudades em Thais, mas igualmente a fé e confiança a darão forças para superar estes seus temporários afastamentos. Vencida pelo sono e com o rosto molhado pelos prantos, adormeceu.
Já Geany ainda nos dele, imaginava que via Carla como uma tábua de salvação, embora ela não seja exatamente isso, representará um doce e calmo interlúdio em sua vida. Sua irmã igualmente terá o dela, que se lhe revelará muito em breve, tudo precisamente qual o sugerido pelo Anjo que os acompanha, Márcia.
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Dias depois Geany recebe uma ligação telefônica de Carla que o fala, eufórica:
–Tenho uma notícia maravilhosa para te dar, amor!
–Que bom! Pode dar Carla.
–Só e, apenas, pessoalmente.
–Amanhã a noite, por volta das dezenove horas, está bom?
–Sim. Passo bem discretamente frente a tua casa, certo?
Geany ficou preocupado, pensando consigo mesmo:
–Carla me pareceu muito feliz durante a ligação! Disse-me na nossa noite de amor que caso algo acontecesse assumiria a responsabilidade sem me envolver em problema algum e ainda que, considera-se a partir dela minha mulher, mesmo não a querendo mais. Será que aquela maluquinha está grávida? Melhor aguardar e não deixar a ansiedade se apossar de mim.

=============ESTRANHO DESTINO============

                            Vigésimo sétimo capítulo.

Geany adormeceu e cedo, ao despertar, lembrou-se de que tem um encontro marcado com Carla a noite. Cerca de três minutos antes da hora combinada ela o liga avisando-o que está a caminho.
Lá chegando o encontra a sua espera.
–Boa noite meu amor! Tudo em você é perfeito, até a sua pontualidade.
–A nossa, Carla, pois são exatamente dezenove horas.
Antes de partir com o carro ela o diz:
–Aposto que está tremendamente curioso para saber a notícia que vou lhe dar, não é?
–Sim, curioso, mas não tremendamente.
–Mas, tenho certeza que vai adorar ser pai.
As reações sentidas por ele ao ouvir o que Carla lhe disse o deixou confuso, e se indagava:
–Será que ela premeditou tudo isso ou foi um acontecimento fortuito? Estranho, independente de ter sido uma ou outra coisa, estou mais feliz que preocupado!
Agora três quarteirões distantes da casa de Geany ela o pergunta:
–Já jantou?
–Sempre jantamos lá em casa, entre as dezenove e trinta às vinte horas.
–Então vamos jantar. Estamos próximos do horário costumeiro da sua família.
Em um restaurante por ela escolhido se acomodam e ao serem atendidos pedem às refeições que desejam. Enquanto elas são preparadas optam por sucos. Chegando, ele fica em silêncio bebendo o seu aguardando ela falar, mas Carla permanece o olhando carinhosamente e com leve sorriso nos lábios.
–Então, não me pergunta nada?
–Não. Sou paciente e esperarei pelo o que tem a me dizer.
–Não está preocupado com nada?
–Adiantaria estar?
–Você é duro na queda amor! Vou te mostrar uma coisa.
Abre a sua bolsa e o exibe uma cartela com comprimidos.
–O que é isso? A pergunta.
–Contraceptivos.
–Então você não está grávida?
–Claro que não querido! Estava testando às suas reações. Foi aprovado viu? Sou sim, maluquinha como sabes, mas não irresponsável. Deixei tudo acontecer da forma que aconteceu, pois me conheço muito bem e sabia que não estava no período fértil, e dessa forma, as chances de engravidar eram mínimas.  Se ocorresse algum imprevisto seria tudo como te prometi, não o envolveria em nenhum problema.
–Tudo bem. E para que estes contraceptivos?
–Porque eu amei o que fizemos e sei que você também.
–Entendi a sua mensagem.
–Quero te passar outra, posso?
–Não precisa já, a li antecipadamente.
Ela segura suas duas mãos e o pede, feliz:
–Fica esta noite comigo, fica!
Geany a olha nos olhos enquanto ela afaga suas mãos, e percebe o quanto Márcia estava certa, sobre o que falou a ele e suas irmãs. A seguir a diz:
–Vamos ficar maus acostumados.
A reação esfuziante de Carla deixa Geany sem ação, e os presentes vendo a alegria espontânea dela, em gestos simpáticos, batem palmas para o casal. Ela simplesmente se levantou veloz da sua cadeira e sentou no colo de Geany, o abraçando plena de felicidade. Ele visivelmente embaraçado, agradece os carinhosos aplausos.
–Sua doida, quer me matar de vergonha?!
–Antes doida feliz, que normal deprimida. 
Retornou a sua cadeira e o pergunta agora séria, com o olhar súplice:
–Tenho chances de ser amada de verdade por ti?
O amor que sente por Thais é insubstituível, contudo o carinho por Carla também é imenso e a última coisa que deseja é magoá-la. No seu entender, quando se omite a verdade no intuito de evitar sofrimentos de alguém, os fins justificam os meios e a disse sem remorso algum:
–Confesso Carla que até pouco tempo pensava ser isso impossível, mas agora não. Tenha um pouco de paciência comigo, está bem?
–Terei meu amor, esteja certo disso. Se você não for meu também não serei de ninguém.
Ele percebe a sinceridade dela, e isso, aliado a sua maneira de ser, o está cativando muito além do que supunha.
–Já terminei e me parece que você também. Vamos embora? Pergunta ela.
–Vamos, responde.
–Deseja ir a um cinema ou outro lugar antes de dormir? O consulta Carla.
–Faremos o que desejar, está bom? Propôs Geany.
–Se me deixar resolver vamos direto para o nosso paraíso.
–O mesmo da outra vez?
–Por mim, sim. Além de ser o mais próximo, o que me importa é estar contigo. Desta vez muita coisa será diferente. Sabemos o que desejamos o que faremos e como faremos.
Chegando ao destino Carla pega seu celular e avisa a sua mãe, indo direto ao assunto, sem rodeios.
Geany também pega o dele e liga para a sua casa, torcendo para quem atenda seja a sua mãe, e não suas irmãs.
É exatamente Jane quem atende.
–Oi meu filho, algum problema?
–Não sei mãe. É problema para a senhora eu dormir fora de casa hoje?
–Não, claro que não! Se estiver com alguma namorada, melhor ainda!
–Estou sim com a minha namorada e em breve a apresentarei a todos, ai em casa.
–Meu filho querido como ansiei ouvir o que estou agora ouvindo.
–Por que, mãe?
–Por nada. Coisas de mãe.
–Tem alguém ai ao seu lado?
–Agora não, por quê?
–Nada, apenas curiosidade.
–Tudo bem. Esteja certo de que ninguém está perto de mim. Tenha uma linda tarde e a noite maravilhosa meu filho!
Jane, embora supondo longe de chegar às razões, teve suas suspeitas mais que confirmadas, e vê agora promissoras perspectivas do início de conseguir decifrar quais mistérios envolvem seus três filhos, e pensou:
–Ele vai apresentar sua namorada à família e certamente irei pegar o “fio da meada”.
Apenas não imagina a total desnecessidade deste “fio da meada”, visto que alguém de forma quase que completamente clara, a colocará diante destas razões e jamais imaginou ver as suas convicções religiosas caírem por terra, bem como a sua vida e de seu marido, tomarem rumos inteiramente por eles inesperados.
–Será que ouvi bem Geany? Perguntou Carla plena de felicidade.
–Ouviu o que, Carla?
–Você dizer para a sua mãe que vai passar a noite com a sua namorada, e que em breve a apresentará a sua família, não disse isso?
–É mesmo, disse!
–Está vendo como não sou apenas eu, doida? Pareceu-me surpreso após lembrar que falou com todas as letras para a sua mãe que sou sua namorada e mais, que vai dormir comigo.
Carla o abraça não se contendo de tamanha alegria.
–Imaginei quando estivemos aqui na primeira vez, que aquela foi à noite mais feliz da minha vida, porém, a julgar pelas coisas que estão me acontecendo, parece-me que surpresas felizes me serão rotina ao seu lado.
Você está me assumido Geany! Meu Deus, obrigada pela graça a mim concedida!

=============ESTRANHO DESTINO=============

                            Vigésimo oitavo capítulo.

Acasos; será que eles existem de fato ou algo os faz parecer terem existências reais?
Na casa de Geany raramente Jane quem atende ao telefone fixo. Normalmente quem o faz é a funcionária que trabalha para a família ou então Thais e Lenita. Agora ele toca e, mais uma vez, por “acaso”, Jane quem atende:
–Alô.
–Bom dia, senhora Jane!
–Bom dia! A senhora me conhece, já ouviu a minha voz antes?
–Não, é a primeira vez que ouço a sua voz, mas a conheço indiretamente.
–E como sabia que foi eu quem a atendeu?
–Digamos que por intuição.
Meu nome é Márcia, sou muito amiga de seus filhos e gostaria de conversar com a senhora, pode ser?
–Claro que sim Márcia. Todos me falam maravilhas de você. Aconteceu alguma coisa ou é assunto que eles não podem saber?
–São exatamente assuntos que eles agora sabem, e os mesmos que a vem preocupando desde longos anos.
Trata-se de fatos ocorridos em passados muitos distantes, que fizeram seus filhos apresentarem comportamentos nada comuns entre irmãos, e que a deixa muito preocupada, não raro, aflita.
–Sim, realmente isso ocorre, mas como sabe destes detalhes?
–Isto a senhora poderá intuir no momento oportuno, já o porquê de eles serem como são lhes foram esclarecido de modo a não deixar a menor dúvida aos três, apenas desconhecem que tenho ciência de tudo o que a senhora passou e ainda passa, em função destas particularidades deles.
Necessitam das nossas ajudas, mas para que elas sejam efetivadas é fundamental confiar em mim, promete-me?
–Sim, prometo.
–O Geany já está conseguindo por si mesmo superar estas dificuldades, porém para a Thais tudo será mais complexo.
Então, vamos ajudar nossos amores a aliviar suas atribulações?
–E o que preciso fazer? Perguntou Jane desconfiada, no entanto também esperançosa.
–Podemos nos ver na próxima quarta-feira em torno das dezesseis horas?
–Sim. Onde nos encontraremos?
–Por favor, anote o meu endereço, é perto da sua residência:
Márcia ditou e Jane escreveu.
–Pronto está anotado.
–Até lá então. Fica com Deus, senhora Jane.
–Que coisa mais estranha! Pensa Jane em voz alta e se pergunta: – Por que “nossos amores”? Geany sempre foi muito reservado. Não é costumeiro falar para as pessoas seus assuntos particulares, mas como ela sabe que ele está conseguindo “superar as dificuldades”?
De onde, como, e por que surgiu a Márcia na vida deles e, agora também na minha?
Todas estas interrogações são apenas preâmbulos a redirecionar os conceitos de Jane sobre a vida e da sua crença religiosa. O intenso desejo de ver seus filhos quais as mães veem os delas deixou Jane ansiosa para chegar logo o momento de conhecer e conversar com Márcia.
Este momento chegou. Na rua por ela indicada Jane observa atentamente a numeração das casas, e parando diante da que confere com o anotado em seu caderno fica admirada.
–A área ocupada por essa imensa e linda casa parece o triplo das que vi até aqui! Pensa Jane, surpresa.
No portão notou um interfone e o acionou, sem perceber que também próximo dele há uma câmera e escutou a voz:
–Boa noite senhora! Seu nome, por favor.
–Jane. Desejo falar com a senhora Márcia.
–Ela a aguarda. Pode entrar senhora Jane.
Ao ouvir que podia entrar escutou também um clique e o portão abrir-se. Ao passar por ele viu uma bela jovem dirigindo-se ao seu encontro.
Recebeu um caloroso abraço e o convite a acompanhá-la.
–Venha Jane, primeiro conhecer meus pais. Você deve está estranhando a ausência de cerimônias, visto que aqui em casa elas raramente são usadas.
Não se impressione com o que provavelmente entendas como ostentação, porque em muitas situações nesta nossa vida as aparências têm suas razões de ser, e de se fazerem necessárias.
Foi conduzida a suntuosa sala e apresentada aos seus pais.
–Este é Sávio, meu pai e esta é Selena, minha mãe.
Enquanto conversavam Jane custava a acreditar que o casal realmente era os pais de Márcia, e pensava:
–É difícil de crer que são pais dela. Parecem irmãos.
–Jane, disse Márcia, faça conosco uma leve refeição, pois após ela sairemos nós quatro e iremos demorar um pouco, está bem?
Concordou e foram para a mesa. Ela encerrada Márcia a pede:
–Nos aguarde, por favor, não demoraremos.
Logo voltam vestidos discretamente com trajes brancos, inclusive os sapatos.
–Tudo pronto, vamos?
–Aonde? Perguntou Jane.
–Prometeu confiar em mim, lembra-se?
–Tem razão, perdoe-me.
Agora estão no interior de um luxuoso automóvel e Sávio diz ao seu motorista.
–Para a Casa dos Nossos Irmãos.
–Para a “Casa dos Nossos Irmãos”, que lugar será esse? Interroga-se curiosa, mas sem entender a razão se sente segura.
Após nove minutos de viagem o automóvel estaciona e eles desembarcam.
O contraste salta aos olhos. A casa deles, em relação ao que supostamente para Jane, e ela está certa, seja a “Casa dos Irmãos”, é algo semelhante entre uma mansão e um casebre, ao menos visto por fora.
Ficou atordoada quando leu o que está escrito acima da porta de entrada: Centro Espírita André Luiz.
–Meu Deus! Exclama. Aonde vim parar.
Entram e, poucos passos, estão no interior de um grande salão.
Márcia sabendo como Jane estava se sentindo a disse:
–Veja tudo calmamente e quando terminar, teremos uma conversa em grupo.
–Estou em um centro espírita, mas não era isso que imaginava acerca deles, pensava.
Sinto sublimes fragrâncias de flores como se elas fossem de outro mundo! Que paz imensa nunca antes experimentada... E essa música divina tocada bem baixinho, penetra minha Alma!...
Pouco depois Jane é convidada a sentar-se com os presentes a “Grande mesa”.
Esta reunião que agora acontece foi a pedido de Márcia, apoiada por Júlio e Valter, os protagonistas das revelações nas quais tudo está vindo à tona.
Os cerimoniais de inicio e finalização são os mesmos.
Antes das elucidações de Júlio e Valter, Sávio pega um grande caderno com as suas páginas presas por molas espirais e, aparentemente lucido, começa a escrever muito rapidamente. Para o assombro de Jane “Sávio” logo termina, retira a página do caderno, dobra-a e a entrega, recomendando:
–Quando chegar a casa entre em seu quarto, e nele, a sós, leia o que está escrito nesta folha de papel.
Após isso Júlio e Valter se revezam nas compactadas, porém suficientes narrativas sobre o fato de seus filhos serem como são. Fica perplexa, contudo, apesar das explanações emitidas pelos médiuns, do que sentiu e viu naquele lugar, continua incrédula.
Termina a reunião, a maioria se despede e Márcia fala à Jane:
–Antes de voltar para a sua casa pode me dizer como se sentiu na “Nossa Casa”?
Contou o que vivenciou a ela, supondo ter sido sincera e concluiu:
–Te peço que me compreenda Márcia, tudo isso é muito novo para mim.
–Compreendo Jane, mas não está faltando nada?
–Não, não está.
–Tem certeza de que não está vendo aqui, e não viu lá na sala onde estivemos reunidos, absolutamente nada que não seja qual a nós, material?
–O que a faz pensar que estou vendo e vi alguma coisa imaterial?
–Uma pessoa, mesmo que em espírito, não é simplesmente alguma coisa. Estamos as duas vendo uma pessoa que você já viu antes por muitas outras vezes.
Jane estremeceu e a perguntou por duas vezes:
–Como sabe disso? Você também o está vendo?
–Sim, com uma pequena e singular diferença; você o vê como uma imagem não muito definida, porém o sente com a visão interior, já eu o vejo como estou te vendo, nitidamente. Ele está sorrindo para você, não?
–Creio que para nós duas.
–Não, apenas para você e é de felicidade Jane!
Ele também esteve lá dentro conosco durante toda a reunião, assim como muitos outros Espíritos.
–Sim, ele eu o vi, já os “outros Espíritos”, me pareceram “unidades esfumaçadas”.
–Por enquanto é assim a sua visão de médium que você é.
–Não está brincando comigo Márcia?
–Sou uma mulher muito feliz, curto a vida como todas as pessoas “normais”, porém jamais brinquei com coisas sérias Jane.
Você é médium vidente minha amiga, todavia vários fatores bloquearam seu desenvolvimento.
Será em breve uma das nossas queridas irmãs, e terás todas as respostas as suas perguntas.

 =============ESTRANHO DESTINO=============

                              Vigésimo nono capítulo.
            À volta para casa após o encontro revelador.

Ao chegar a casa, pouco mais das vinte e três horas, é recebida com certa preocupação por sua família, já que raríssimas vezes isto aconteceu. Mathias conhece mais que ninguém a sua esposa, no entanto não apenas ele, como também seus filhos, estranharam e muito, a expressão da fisionomia de Jane e Geany a perguntou:
–Está tudo bem mãe?
–Sim filho. Estive na companhia da Márcia e de mais algumas pessoas. Preciso ficar por algum tempo, só. Não se preocupem, pois fiz uma refeição e não preciso jantar.
Geany, Thais e Lenita se entreolharam de forma, para Mathias muito estranha, e foram questionados por ele:
–Por que vocês estão se olhando assim?
–Assim como pai, perguntou Lenita?
–Nada, deixem para lá. Alguma coisa aconteceu, sem dúvida, mas creio que a mãe de vocês me esclarecerá.
Em seu quarto, deitada na cama, Jane antes de ler o que para ela fora escrito, fica por vários minutos meditando sobre o inusitado passeio, e a seguir pensa confusa:
–Meus filhos sempre foram muito estranhos, no sentido de seus relacionamentos, mas tudo o que me disseram, mormente a respeito de vidas passadas, é mais estranho ainda. Jamais imaginei a possibilidade de isso ser verdadeiro, contudo me sinto dúbia.
A história que soube se correta, explica sim as suas maneiras de ser. A Márcia também me disse ter visto a mesma pessoa que vi. Não terá isso sido um ilusionismo? Se for, fui iludida duas vezes por ela ou mais pessoas, já que também “o vi” dentro da sala onde fica a “grande mesa”. Mas, por qual razão me enganariam? Não vejo o menor sentido nisso! “Ele” me olhava ternamente, ficando quase que colado ao senhor Sávio, nos breves instantes em que escrevia. E muitas daquelas figuras esfumaçadas que pareciam assistirem a reunião, teriam sido de fato Espíritos? Para completar ela afirmou que sou médium; essas pessoas pelas quais, de diversas formas, os Espíritos se comunicam com “os vivos”, no meu caso, vidente, e preciso me aperfeiçoar para ver tudo de forma clara.
Meu Deus ajude-me! Sempre desejei entender a razão de meus amores se comportarem diversos dos irmãos “normais”. O papel com a mensagem escrita estava me esquecendo dele!
Pegou-o em sua bolsa, o desdobrou e começo a leitura logo de início se espantando:
–Como foi possível o pai da Márcia ter escrito este texto tão rapidamente e ele ter ficado assim, claro, e com esta linda caligrafia? Começou então a lê-lo.
–“Minha querida filha Jane”! “Você compareceu a esta reunião apenas na tentativa de ajudar aos filhos que tanto ama, entretanto isso te será dificultado sem antes abrir os olhos às outras realidades”.
“O que te foi por longos anos, influenciado a acreditar te satisfaz plenamente? Não se deixe conduzir por coisa alguma que não seja unicamente a voz do teu coração. Apresenta-o todos os seus questionamentos e aguarde confiante, visto que jamais deixará de ter uma indicação absolutamente segura de o caminho a seguir ou decisões a tomar”.
“Apresento-me a ti nos períodos em que está muito triste, confusa, insegura e ainda para te orientar, mas acredita que sou fruto da tua imaginação”. “Nunca se interrogou por que a paz, mesclada a leve saudade, te envolve sempre que desapareço da tua percepção?”
“Sou em relação a ti, nesta tua vida, o que muitos denominam de Anjo da Guarda, Mentor Espiritual... O termo é irrelevante minha filha, entretanto saiba que fui, na tua existência passada, seu querido pai biológico e supliquei ao Pai de todos nós, acompanhar-te nesta tua passagem por aqui”.
“Você e outra pessoa me viram ao deixar o Sagrado Templo, junto à saída, bem como na sala da ‘grande mesa’. É de fato uma médium vidente e as pessoas com as quais esteve desejam apenas te ajudar. Continuarei ao teu lado por todos os dias da tua vida, e a receberei saudosamente de braços abertos ao termo dela, no seu Novo Lar”.
“Que nosso Deus te acompanhe sempre”.
Hamilton.
–Agora percebo claramente as limitações que criamos em nossas vidas, por mantermos a mente sempre focada em uma única direção, e não abrimos suas portas para quaisquer outras realidades.
Foi preciso a Márcia aparecer em meu caminho para isso compreender. Ele, Hamilton, sempre foi Real. Meu amado amigo, pai, protetor. Negava-me a acreditar na sua existência.
Lembro-me neste momento que ele, durante um sonho acontecido há vários anos, me orientou a colocar Lenita para estudar com Thais e transferisse Geany para outro colégio. Está claro que sempre soube do que ocorre com meus filhos, porém, creio, não poderia me alertar, pois tudo tem seus momentos certos de acontecer. Também sabia antecipadamente que ficaria imensamente confusa, a ponto de questionar o caráter daquela amável criatura, a Márcia, e das outras pessoas que tinham um propósito sim, me socorrer.
Jane, feliz, guarda com muito carinho o papel com o texto nele escrito que recebeu das mãos do pai da Márcia, mas sabe agora que ele serviu como instrumento de quem um dia foi seu querido pai, e vai ao encontro de seus filhos.
Na sala, com lágrimas nos olhos, abraça os três e os diz atentamente observado por Mathias, imensamente curioso:
–Agora os compreendo, sabem?
–O que agora compreende mãe, do que a senhora está falando? Questiona-a Thais apreensiva, já que quando Jane chegou do seu inesperado passeio disse-lhes que havia estado com Márcia e mais alguns amigos.
–Penso que sabem perfeitamente a que estou me referindo.
–A senhora esteve com a Márcia e amigos onde estamos imaginando? Perguntou Lenita.
–Sim, exatamente lá.
–E o que a dá tanta certeza de agora nos compreender, uma vez que a senhora sempre se insinuou céptica sobre o Espiritismo? Agora foi Geany que a indagou.
–Circunstâncias da vida podem tornar diferentes nossas maneiras de ser e pensar, não pode?
–Sim, tem razão. Mas, acredita mesmo no fundo do seu coração de que tudo o que a senhora foi contado possa ser verdadeiro? Novamente a interroga Geany.
–Acredito. Também outras ocorrências contribuíram, não apenas para pensar que sim, mas igualmente abrir novas perspectivas na minha vida.
Existe um Anjo ativamente empenhado a nos ajudar, e vocês precisam ser fortes para deixarem o passado onde ele deve ficar e, abrirem seus corações a atual realidade.
–Este Anjo é a Márcia, não mãe? Perguntou Lenita.
–Sim, mas nada e nem ninguém pode ajudar a quem não deseja ser ajudado.
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Geany e Lenita, movidos por situações diversas, sentem-se com mais predisposição as mudanças, Thais, porém sofre, mas concorda que a vida continua e que novos caminhos, floridos ou não, precisam ser trilhados.
Ao fim da conversa com seus filhos Jane vai para seu quarto e Mathias, que se absteve de questionamentos até então, como ela esperava, quer saber:
–É possível antes de dormirmos me esclarecer sobre a conversa que teve com nossos filhos, onde até mesmo Espiritismo foi mencionado?
Não fosse a companheira amada de tantos anos a lhe contar Mathias seguramente não acreditaria.
–Então isso pode realmente acontecer? Perguntou perplexo.
–Se não tivesse passado pelas experiências que vivi também duvidaria querido.
Sempre te alertei para os estranhos comportamentos dos nossos filhos, mas você cria que eram normais.
As maiorias dos pais não têm contatos com os filhos quais as maiorias das mães. A distância, quase continuamente acentuadas pelas ocupações fora de casa, tornam os filhos menos observados por eles.

=============ESTRANHO DESTINO=============

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