Estranho Destino-Livro Completo, (Segunda Parte).

     


=============ESTRANHO DESTINO=============

                            Décimo primeiro capítulo. 


Quarta-feira da semana seguinte os três irmãos acompanhados por Márcia, estão no Centro e nas presenças dos médiuns videntes e ouvintes, embora possuam ainda outras extraordinárias faculdades mediúnicas, Júlio e Valter. Os médiuns dão abertura às primeiras tentativas de chegarem às ascendências iniciais que determinaram todo um processo de envolvimentos entre os então Geany, Thais e Lenita.
As pesquisas mediúnicas têm início com a oração ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo ao povo que o ouvia no sermão da montanha, Pai-Nosso. (Mateus capítulo 06, versículos de 09 a 13).
Ao final dela os três irmãos sentados juntos e de mãos dadas, entre Júlio e Valter, que também unem uma de suas mãos as deles, ficando tão-somente Márcia presente a mesa, apenas como companhia fraterna, separada assim desta corrente, nesta reunião.
Permanecem em silêncio por três minutos e, após eles, imagens começam a desfilar diante das visões interiores de ambos os médiuns, e Júlio vai relatando na medida em que as vê.
==========================================
–Pouco mais da metade do século dezessete em Florença, Itália. Lucca, naquela existência, Geany, um jovem e brilhante professor de Literatura, em uma das escolas que existiam no território Florentino, era casado com Teodora, filha de nobres da região, a então Lenita.
Ela o amava muito e viviam em harmonioso relacionamento conjugal por muitos anos, até que Teodora deu luz à primeira filha, batizada com o nome de Inês, deixando-a aos cuidados de uma jovem mulher contratada simplesmente para este fim, chamada Domícia, no presente, a Thais.
Domícia, uma moça muito pobre e de rara beleza física, foi aceita para o cargo por indicação de amigos da família, porém Teodora a princípio relutou em aceitá-la, não apenas por ser muito bela e jovem, mas como igualmente notar, que nada nela se assemelhava a uma plebeia, a despeito da sua aparente humildade e obediência extrema. Pressentia que seus encantos femininos poderiam de alguma forma, trazer-lhe futuros descontentamentos.
Domícia cumpria a rigor suas tarefas nos cuidados do bebê Inês dando-a muito zelo e carinho, como se ela fosse sua própria filha.
Observava com imenso prazer, embora temerosa, que exercia forte fascínio em Lucca, e que também se instalava em seu coração um sentimento que ela poderia, se desejasse, reunir esforços para contê-lo. Ele por sua vez deixava-se seduzir pelos atrativos da jovem serva, mesmo sabendo das possíveis consequências e, uma delas não tardou a acontecer, igualmente se enamorou de forma intensa por Domícia.
Sempre que Teodora saía por algum motivo, Lucca estando em casa, eles se entregavam as paixões ilícitas, ainda que fossem elas mescladas a um amor sincero que crescia dentro deles.
Os meses sobrevinham e, certa vez, quando Domícia brincava com a pequena Inês no jardim da luxuosa casa, notou Lucca se aproximar e a propor fugirem para muito distante dali, uma vez que não suportava mais aquela situação.
Domícia sentiu-se, ao mesmo tempo em que feliz, pois agora o amava de todo o seu coração, muito assustada, já que pressentia a grande possibilidade de serem encontrados pela poderosa família de Teodora, e a pena para este abominável ato seria sem duvida, a morte.
–Por que fui enveredar por este caminho? Interrogava-se angustiada. Precisava muito deste emprego, mas deixei a maldade se apossar de mim. Agora este sentimento que me aflige, e cresce a cada dia mais, como também no professor Lucca, pode terminar em tragédia. Preciso e urgente sair daqui, não vejo outra solução.
À noite, próxima se recolher, Domícia se apresentou a Teodora e a pediu dispensa dos trabalhos que prestava a família.
–Mas, você está aqui há tão pouco tempo Domícia! Aconteceu alguma coisa? Explique-me o porquê desta sua decisão.
–Sinto muito pela minha adorada Inês, pois aprendi a amar imensamente a sua filha, e também pela senhora, uma patroa como nunca tive outra igual, visto que trabalho desde os meus doze anos, mas minha mãe está muito adoentada e precisa dos meus cuidados.
–Compreendo Domícia, porém pode ao menos esperar eu conseguir outra pessoa para cuidar da Inês?
–Espero sim, senhora Teodora. Disse com lágrimas nos olhos pela torturante saudade que iria sentir de Lucca, e também da pequena Inês.
Teodora era por demais, exigente, e demorou quase um mês para conseguir uma substitua a altura da incansável Domícia, que vivia uma implacável dor pelo seu afastamento para sempre, supunha ela, dos seus grandes amores.
Oito dias antes de ela ir embora, aproveitando a ausência da esposa, Lucca chamou Domícia para conversarem no quarto onde preparava suas matérias escolares, e com ela se encontrava as escondidas.  Com muita cautela, para evitar as atenções de outros serviçais, a falou, desolado:
–Sei que vai embora por minha causa. Perdoe-me, foi mais forte que eu, não consegui resistir a este sentimento que se acomodou em meu coração.
Ela chorou copiosamente e o disse:
–Não. Sabemos que não foi isso o que aconteceu. Somos os dois culpados por tudo e iremos pagar pelos nossos erros, sofrendo a angustiante saudade que certamente no acompanhará. Quando tentei sufocar a voz do amor que crescia no meu coração foi tarde demais, não me restando outra decisão. Se fugíssemos seria pior. Fatalmente seu sogro e demais parentes da sua mulher nos encontraria, e a nossa sentença, a morte, não tardaria a ocorrer. O que fizemos não tem perdão, pois a sua esposa não merecia a nossa vergonhosa deslealdade.
–Diga-me para aonde você vai. Não terei paz longe de ti.
–Pelo amor de Deus senhor Lucca, não me peça isso!
Lucca a abraçou e, apertando-a contra o seu peito a implorou:
–Não faça isso comigo Domícia.
Ela o olhou nos olhos enquanto rolavam dos seus, abundantes e ardentes lágrimas que desciam banhando todo o seu rosto.
Foi inevitável o apaixonado encontro de seus lábios, em um longo e desesperado beijo de despedida.
O último dia de Domícia como empregada da família Lucca chegou, e ela se despede de Teodora, agoniada. Não lhe foi possível ocultar o tamanho sofrimento que martirizava sua Alma.
–Você está se sentindo mal, Domícia? Perguntou Teodora preocupada.
–É apenas emoção senhora. Nunca vou me esquecer de Inês.
–Mas pode vir visitá-la sempre que te for possível.
–Virei sim, senhora Teodora. Obrigada por tudo.
–Vá com Deus Domícia. Desejamos que a sua mãe fique curada da enfermidade que a acometeu.
===========================================
À noite, quando Lucca retorna do trabalho e encontra outra mulher cuidando de Inês, pergunta a sua esposa:
–O que houve, onde está Domícia?
–Não trabalha mais aqui. Você sabia que ela pediu dispensa da função que exercia para cuidar da mãe enferma. Por que este espanto todo?
–Por nada, curiosidade. Estávamos muito acostumados com ela aqui.
–Sim, estávamos, mas você me parece melancólico com a ausência dela. Ficou extremamente pálido, como alguém que recebe a notícia da morte de um ente muito querido.
–Impressão sua Teodora. Estou é muito cansado.
Lucca se retira e sua esposa fica intrigada com a estranha reação dele.
–Domícia era muito querida por nós, é verdade, mas a ponto de causar-lhe toda esta comoção? Questionou-se desconfiada.
Com o decorrer do tempo, percebendo seu marido completamente adverso ao que era antes da partida de Domícia, não mais se alimentando de forma adequada, e passando a maior parte dos dias em que permanecia em casa, trancado no quarto onde as aulas que ministrava aos seus alunos tinham dele atenções especiais, realizava pesquisas... Chegou à conclusão de que o seu lastimável estado era proveniente da ausência dela.
Seus pais eram muito ricos e desempenhavam papéis importantes junto aos nobres e poderosos comerciantes da região.
Tentava de todas as formas com os auxílios deles, ajudar Lucca a sair do intenso quadro depressivo em que se encontrava.
Com o socorro de terapeutas das mais diversas especialidades, alguns dos quais vindos de longe, ele conseguia paulatinamente se refazer, mas ficou afastado de uma das coisas que mais amava naquela sua vida, lecionar.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                                     Décimo segundo capítulo.
           
Os dias e os meses se sobrepunham uns aos outros e próximo de completar um ano sem ver e, ao menos ter dito notícias de Domícia, Lucca se dirigiu a uma igreja localizada distante da sua residência, e ajoelhando-se frente ao altar, orou chorando em intensa angústia.
De tão eloquente e extrema concentração nas suas preces e súplicas que nelas fazia, quase não percebeu um toque suave em seu ombro direito e a voz que o chamava:
–Lucca, Lucca...
Sentiu as portas do seu interior se abrindo, e frescas brisas de alento docemente por elas penetrando, fazendo-o sair do desespero que oprimia seu coração.
Ao olhar para o lado vê Domícia também ajoelhada junto de si, agora, após o toque em seu ombro, e pronunciar duas vezes o seu nome, com as mãos unidas e o olhar fixo na imagem da Virgem Maria.
Sentiu alegria indescritível e, logo a seguir, sem entender o porquê, qual um punhal penetrando no seu peito e gritou sufocado:
–Domícia meu amor!
Levantaram-se rapidamente e ele a disse:
–Minha vida, pelo amor a tudo o que te possa ser de mais sagrado, por favor, não me abandone nunca mais.
Ela o abraçou com muita saudade, aliada a infinita ternura, percebendo seu corpo trêmulo, e em seguida, olhando-a como um louco. Falou-o assustada:
–Lucca querido, por que ficou completamente descontrolado e entrou em pânico?
–Venha comigo. Puxou-a pela mão qual a um alucinado.
–Lucca, pelo amor de Deus, o que está acontecendo contigo?! Sou a Domícia, o amor da tua vida.
Estava anoitecendo quando saem da igreja com ele quase a arrastando pela mão e Domícia pressentindo a maior tragédia daquela sua vida.
–Vamos querida, vamos para muito longe daqui, para outro país, se necessário for.
Acompanhava-o sabendo o que ele pretendia e o que inevitavelmente iria acontecer. Aturdida seguia Lucca que se comportava como um alienado.
Uma carruagem que fazia transportes de pessoas, semelhante aos atuais taxis, passava vazia e lentamente frente à Igreja, quando Lucca gritou:
–Pare, pare!
Entraram rapidamente e ele ordenou ao dono da carruagem:
–Vamos sair de Florença o mais rápido possível. Pago o que me pedir.
O veículo tracionado por dois cavalos partiu velozmente, provocando intensa curiosidade nas pessoas que transitavam pelas ruas e avenidas, e muitas delas se desviavam para não serem atropeladas.
Ela, embora horrorizada, permanecia em silêncio, aguardando pelo desfecho daquela que pressagiava ser a última noite de suas vidas.
Após longa correria e já saindo do perímetro urbano, ingressando agora em área pouco habitada e com os cavalos marchando lentamente, pois estavam exaustos pelo descomunal esforço, ouviu o condutor o dizer:
–Senhor, precisamos parar um pouco para dar água aos animais e deixa-los descansar por pelo menos meia hora.
O dono do coche acendeu o lampião, pegou um tonel que continha água limpa, retirou seu tampão e o conduziu até onde estavam os animais. Derramou-a em um vasilhame adequado para saciar a necessidade de água dos cavalos.  Fazia muito frio e a escuridão inquietava o cocheiro, deixando Lucca e Domícia apavorados, já que intuíam simultaneamente o que iria irremediavelmente acontecer.
Desceram da carruagem, pois dentro dela sentiam-se ainda mais aterrorizados e preferiram ficar próximos do cocheiro.
Dois homens que os espreitavam, armados de punhais com os gumes extremamente cortantes, apareceram bruscamente e, um deles segurando Domícia por trás, e com uma das lâminas encostada em seu pescoço, exigiu que lhes entregassem tudo de valor que portavam e transportavam, e qualquer tentativa de reação a jovem morreria.
Lucca implorava pela vida do seu amor, também lhes pedindo calma, pois fariam tudo que eles ordenassem.
Esta não havia sido à primeira ocorrência semelhante enfrentada pelo dono do veículo em tão pouco tempo, e na última, dois passageiros ficaram feridos sendo que um deles em estado grave, tendo este acontecimento sido muito prejudicial ao seu negócio.
Passou a partir dela sempre que estava trabalhando, a portar, oculta sob sua grossa blusa, uma adaga muito bem afiada de doze centímetros de punho, com vinte e dois de lâmina, presa no cinto de sua calça pela alça da bainha, nele colocada de forma a não lhe trazer desconforto, principalmente quando estivesse sentado.
Simulando obediência colocou o lampião apoiado no chão, muito próximo ao lado esquerdo da carruagem, dizendo aos salteadores que iria pegar tudo de valor que se encontrava dentro do veículo. Entrou e, ao sair dele pelo lado direito, tentando dificultar a percepção das suas ações pelos assaltantes, se deslocando mais pela penumbra, desfechou um golpe mortal no que segurava Domícia. A seguir partiu muito rápido para atacar o outro, porém o primeiro atingido, ao sentir a profunda penetração da lâmina nas suas costas, tentou se apoiar agonizante em Domícia, e um dos lados do punhal dilacerou uma das grossas artérias jugular dela. Ambos caíram e o abundante sangue do amor de Lucca jorrava levando-o ao extremo desespero.
Ele abaixou-se rapidamente para prestar-lhe socorro e percebeu, pela grande quantidade de sangue golfando do pescoço de Domícia, que nada mais poderia ser feito. Abraçou-a dizendo-lhe, enlouquecido, nos seus instantes finais daquela vida:
–A implorei que não me deixasse novamente e você está, por mais uma vez, indo embora.
O cocheiro após matar também o outro assaltante, ouvindo os gritos desesperados de Lucca, dele se aproximou com o lampião, e viu o quadro em que, ao mesmo tempo, emocionante, pavoroso.
Lucca abraçado à ensanguentada Domícia, com a claridade emitida pelo lampião, vendo o punhal do assaltante, caído próximo dele, pegou-o e, num ato de desesperança cravou-o no seu peito, deixando este mundo com o corpo sobre o dela.
Esta tragédia comoveu todos os habitantes da região onde eles moravam.
Teodora assim que tomou conhecimento do fato urrava enlouquecida:
–Desgraçada Domícia! Foi à culpada de tudo isso. Vou atrás de você nos fundos dos infernos, pois há de me pagar pelo o que fez a minha família. Saiu correndo pelas ruas completamente e, de forma irreversível, sofrendo das faculdades mentais, tamanho o choque por ela sentido.
A menininha Inês foi criada pelos avós.
=========================================
Ao terminar a narrativa das contínuas imagens vista pelo médium Júlio, com exceção dele e de Valter, todos pranteavam abundantemente. Os três irmãos de nada se lembram, no entanto estes acontecimentos estão profundamente registrados nos âmagos de cada um deles e, inconscientemente os afetaram de forma colossal.
Márcia que também é integrante do corpo de médiuns, nada pode fazer para tranquilizar seus amigos, pois sentiu igualmente, durante o relato de Júlio, seu coração oprimido, já que percebeu seu entrelaçamento a eles na história contada, restando-lhe apenas saber que posição ocupa nesta “contextura do destino”.
Júlio e Valter, ambos incorporados por iluminados Espíritos, emitiram com as mãos em Geany, Thais, Lenita e Márcia, fluídos de paz, na linguagem espírita, passes magnéticos.
Aos poucos os quatro recuperaram parte da serenidade, uma vez que ela plena será necessário algum tempo.
A seguir, já nas ausências dos sublimes irmãos que os auxiliaram, Valter fala a Márcia:
–E você, irmã Márcia, ainda não nos está claro como, mas de alguma forma encontra-se envolvida com os três irmãos.
O que Valter a disse, simplesmente ratificou a sua convicção.
–Rogamos ao Alto, diz ele, que possamos chegar a uma elucidação definitiva sobre a questão e que os jovens consigam redirecionar seus destinos.
Com a mesma oração inicial encerra esta primeira reunião.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                                     Décimo terceiro capítulo.
               Os irmãos voltam estranhos para casa.

Meus filhos, que caras são essas? Pergunta preocupada Jane, assim que eles chegam a casa.
–Estamos bem, mãe, responde Geany e disfarça: assistimos a um filme demasiadamente marcante, apenas isso.
Jane e Mathias se entreolham desconfiados e quando eles se afastam ela comenta:
–Conheço quase como a mim mesma, nossos filhos. Algo de muito grave aconteceu com eles.
–Desta vez sou obrigado a concordar contigo, mas vamos nos abster de interrogatórios. Se algum dia eles desejarem nos dizer o que houve, tudo bem, caso contrário, deixemo-los em paz.
–Você está certo Mathias. Meu coração de mãe me diz que não correm riscos, em relação a pessoas alheias a nossa família. A coisa está circunscrita unicamente a eles mesmos.
Em seus quartos, antes de adormecerem, Thais, Lenita e Geany, refletem por mais de uma hora sobre a avassaladora revelação a eles apresentada, e que possibilita, aliada a outra ou a outras, esclarecê-los do por que vivem em situações que apenas estranhos destinos os poderiam ter colocados.
–Que coisa espantosa! Pensa Thais. Veio-lhe também a lembrança, os constantes sonhos conexos aos de Geany, quando ouviu Lenita a perguntar, baixinho:
–Irmã, está ainda acordada?
–Sim. É difícil dormir rapidamente após o que nos aconteceu.
–Sinto-me muito receosa de que esta história a nós contada seja real.
–Também me sinto assim Lenita, porém para mim, creio, seja mais fácil de admitir essa probabilidade.
–Por que pensa dessa forma, sugerindo quase uma certeza?
–Me perdoa irmã, mas não te posso falar sobre isso.
–Tudo bem, entretanto, na medida em que a narração daquele médium foi se desenvolvendo, meu coração parecia que ia explodir de tanta dor. No final, quando ele falou sobre a Márcia poder igualmente estar conosco envolvida nesta trama do destino, e todos percebemos o quanto ela, qual a nós, ficou psicologicamente abalada, para mim ficou claro que a possibilidade de tudo isto ter de fato acontecido, não é apenas crença sua não.
–Sim, embora a nossa dor, notamos com grande pesar a reação da Márcia, mas que relação você entende que possa haver entre nós e ela?
–É algo semelhante à coisa de doida. A despeito de ela ter mais idade que eu, a amo como se fosse minha filha.
–Talvez seja coisa de doida só na aparência, porque senti uma imensa vontade de abraçá-la quando a vi naquele estado, como se ela também fosse a minha filha muita amada.
–Thais! O que você me disse irmã?! E se ela tiver sido a Inês? Foi afirmado que a Domícia também a amava qual a uma filha!
–É muito provável que sim Lenita, contudo intuo que haja laços ainda mais estreitos entre nós duas e ela.
–Não duvido de mais nada Thais.
–E de mim, não sente rancor?
–Não, não sinto, embora, confesso, sempre tive muitos ciúmes de você com Geany. Gostaria tanto de ter dele a atenção que você tem.
–Irmã, diz Thais: pressinto que devemos nos preparar para revelações capazes de nos causar ainda mais impacto.
–Devemos sim. Desejo também frequentar aquele centro. Antes de começar a nossa reunião com os dois médiuns e a Márcia, fiquei surpresa com o lugar. Imaginava que fosse como coisas que ouvi falar sobre o espiritismo.
–Imaginei o mesmo que você, e fiquei muito curiosa quando Geany disse que a Márcia é espírita. Não conseguia unir a figura dela aos lugares quais os que me sugeriram.
–Veja só, Lenita, quem poderia supor, nós duas, Espíritas!
–Mas, não somos ainda...
–Ainda, bem observado, mas, a julgar pelo que vi e ouvi, estamos a caminho.
Geany deitado em sua cama sofria muito. Foi o mais atingido por estas avalanches de, para ele, descobertas cruciais. Aguardará ansioso pela segunda reunião onde nela, não tem dúvidas, ficarão evidentes os elos entre as vidas anteriores e a atual. Apenas teme, e muito, sobre a sua decisão quanto tudo ficar esclarecido de forma definitiva.
No dia seguinte Lenita liga para a amiga e se informa com ela, de como proceder para frequentar o Centro.
Uma semana depois os irmãos são orientados por Valter e Júlio, a aguardarem o momento propício para a segunda e última reunião.
  
=============ESTRANHO DESTINO=============

                                      Décimo quarto capítulo.

Passam-se os dias e a rotina na família de Mathias e Jane parece ter retornado a que era antes quando certa noite, durante o jantar, o celular de Geany toca e ele atende:
–Alô.
–Oi Geany boa noite, é a Carla.
Ele pede licença aos familiares para atender na sala.
–Carla, por favor, me ligue mais tarde, por volta das vinte e duas horas, é possível?
–Para falar contigo querido, até de madrugada para mim está ótimo.
–Tudo bem. Até logo mais então.
Volta para continuar a refeição sob os olhares curiosos de Thais e Lenita, pois na pressa Geany acionou acidentalmente a tecla do viva voz, percebendo todos que era voz feminina e Jane comenta:
–Gostaria muito e, creio que Mathias também, saber o motivo de vocês duas se preocuparem tanto com a vida particular de Geany!
–Impressão sua mãe, responde Lenita.
–Impressão? Questiona Jane aborrecida e ao mesmo tempo preocupada, continuando:
Então eu e seu pai estivemos por quase toda a vida de vocês três, impressionados?
Os irmãos estremeceram e ficaram em silêncio sepulcrais.
–Deixam eles Jane, pediu o calmo Mathias, embora também preocupado com o permanente e anômalo comportamento de seus filhos.
Vinte e duas horas exatamente, Geany já deitado, o celular toca.
Ele atende e antes de dizer qualquer coisa, ouve:
–Quantas saudades amor! Você sumiu o que houve?
–Carla, não tem tanto tempo assim que estive ai, na sua casa.
–Para mim tem sim. Volte a nos visitar, por favor.
–Visitar você, mais precisamente?
–Por mim nos veríamos em qualquer outro lugar.
–Como conseguiu o número do meu celular?
–Será que você não percebeu que demorei muito a te ligar?
–Mas, isto não esclarece a minha pergunta.
–Primeiro precisei aguardar pelo momento certo e quando ele chegou, através de uma investigação profunda, conseguir descobri com a ajuda da Bruna, o número dele.
–Não entendi.
–Nós, eu e a Bruna, suplicamos por diversas vezes ao Alex para ele nos dizer o número, mas ele se negava. Não queria trair a sua confiança. Eu e minha irmã não entendemos a razão de você não desejar que te ligássemos. Não faça isso conosco Geany! Prometo que não ficaremos ligando com insistência. Até te proponho uma coisa.
–Sim, pode falar.
–Liga para mim de vez em quando.
–Tudo bem, mas você ainda não me explicou como conseguiu o número.
–Foi bastante complicado. Primeiro, o Alex não largava o aparelho dele de jeito nenhum, mas como sempre existem um, porém, certo dia ele saiu e esqueceu o celular. Procurei pelo seu nome na agenda e facilmente o encontrei, no entanto após discá-lo, quem atendeu disse que eu deveria ter me enganada. Poderia na pressa ter tocado em alguma tecla diferente da desejada, e voltei a ligar, entretanto deu no mesmo. 
Comentei com a Bruna a minha decepção. Ela muito astuta, não se convenceu.
Peguei novamente o celular e fomos para o nosso quarto, e lá fizemos uma geral no aparelho dele.
A agenda de telefones e endereços é extensa, contudo nada que nos conduzisse até você, mas por que seu nome estava ali e o telefone não batia?
Bruna insistia me dizendo:
–Ele pode ter trocado qualquer número, sabendo da possibilidade de algum dia acontecer o que aconteceu; esquecer o aparelho em casa.
–Geany, fizemos dezenas de ligações, invertendo os dois primeiros, os dois últimos, uma série de combinações e, nada. Logo aconteceu uma coisa muito estranha; como algo que desejava me orientar a descobrir o que queria. Lembrei-me de que quando você esteve aqui, em casa, ao conversar muito com os nossos pais, ficamos sabendo da sua paixão pela Itália, cuja capital é Roma, e que ainda invertido, quer dizer, amor.
Novamente olhamos a lista de nomes com atenção redobrada, e já tínhamos visto o nome amor, porém entendemos de imediato tratar-se de alguma namorada que ele deve ter como especial. Meu irmão é astuto Geany, pois o número que se seguia ao seu nome era simplesmente para despistar, e quem tentasse algo através dele logo desistisse, em função da complicação que seria como foi para nós duas.
Passamos horas nessa pesquisa e você deve ter percebido que te liguei em um momento impróprio, visto que sabíamos da possibilidade de estar jantando, todavia a ansiedade foi muito grande, perdoe-me. Quando ouvi o seu “alô” meu coração saltou de alegria. Reconheci instantaneamente a sua voz.
Também te peço, por favor, não diga para o Alex que sabemos o número do seu celular. Tem a minha promessa de que a Bruna não irá te ligar. Ela está mudando muito querido e você, direta ou indiretamente, contribuiu muito para isso.
–Tudo bem, não se preocupe.
–E ai, quando vem novamente na nossa casa?
–Não sei Carla, mas se desejar, poderemos sair em um final de semana qualquer.
–Será que ouvi bem? Não está brincando comigo Geany?
–Sabe perfeitamente que não sou brincalhão, é que estou precisando, e muito, arejar a minha cabeça.
–Que ótimo! Creio ter bons ares para ela.
Pode ser este sábado agora?
–Sim. Marque a hora e o lugar que estarei lá, te esperando.
–Que tal passarmos o dia todo juntos? Se estiver exagerando me diga francamente, certo?
–Pode ser.
–Querido que surpresa maravilhosa! Pensei que fosse levar um tremendo fora seu e, estou aqui, radiante. Passar um dia inteirinho contigo, é um sonho!
Carla se despediu e Geany percebeu que este imprevisto sossegou um pouco o seu coração e logo adormeceu.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                                       Décimo quinto capítulo.
                 O primeiro e surpreendente encontro.

Na sexta-feira à noite, Geany como sempre faz antecipadamente ao passar dias ou temporadas fora, qual a semana que esteve na casa de seu amigo Alex, avisa seus pais que no dia seguinte vai sair e voltar apenas à noite.
–Você está certo meu filho, comenta Jane, precisa passear, de lazer. Tem levado a vida muito a sério, além do necessário.
Na manhã do sábado toma seu café bem cedo e vai ao encontro de Carla.
Lenita e Thais estranham a ausência do irmão, mas, apesar de curiosas e preocupadas, se abstêm de perguntas a sua mãe.
Próximo das nove horas ambos se encontram. Após o longo e saudoso abraço, ao menos para ela, o pergunta:
–Aonde vamos?
–Que tal a um grande jardim público? Sugere Geany.
–Contigo vou até para Marte se me convidar.
–Não, Marte, não, é muito longe! Além do que tenho testado vários foguetes propulsores para a minha nave ir a longas distâncias e todos, não descobrir ainda a razão, explodem logo após, ou durante os lançamentos. Sequer um apenas chegou logo ali, na Lua. Não quero me suicidar junto a ti, rir, brincando.
–Assim, não! Imaginei que fosse seguro, também rir brincando. Vamos então ao Jardim Botânico, concorda?
–Excelente ideia.
Nele, com muito verde retratado nas palmeiras centenárias, plantas das mais variadas espécies e, muitas delas originárias de diversos países, transmitem alegria e paz aos apreciadores da natureza.
Enquanto caminha abraçado a Carla, Geany pensa:
–Esse lugar é uma pequena amostra de como nosso mundo é maravilhoso. Pena que o homem na sua ganância, falta de planejamento, ignorância, entre os fatores, já destruiu e continua destruindo as belezas naturais, trazendo com seus atos nefastos consequências desastrosas.
–Curioso, Geany, estive aqui algumas vezes e não havia percebido como esse lugar é tão lindo!
–É compreensível as suas precedentes reações. Podemos estar, nos mais encantadores ambientes, até mesmo no próprio Paraíso, porém sem paz e amor no coração, nossos sentidos interiores não percebem sequer a Majestade contida em uma flor.
Carla ouvia Geany falar e não conseguia entender como ele é diferente dos rapazes que conhece e conheceu. Falou em paz e amor no coração, mas lhe parece triste.
–Paz e tristeza são dois sentimentos antagônicos, pensava. Será possível a um ser humano sentir ambos, simultaneamente?
Era-lhe no presente impossível conceber tal coisa, mas neste mesmo presente o que para ela mais importa, é a companhia de Geany e descobria com ele, valores até então impensados.
Veio ao seu encontro, desejosa de carinho e amor, é verdade, contudo tinha, e muitos exacerbados, outros intentos.
Andava com ele de mãos dadas pelo extenso acervo vivo e deslumbrante, muito bem cuidado e de organização louvável.
Agora sentados em um dos numerosos bancos ali existentes conversavam sobre a vida, tema que para Carla era demasiadamente maçante. Colocaram ambas as pernas dispostas de maneira tal, que ficaram sentados de frente um para o outro.
Deixava-o conduzir os assuntos e o ouvia olhando em seus olhos ternos e misteriosos. Suas palavras, em dado momento, sugeriam-lhe que ele se esforçava para parecer natural, mas estava sofrendo, e ela gostaria muito de saber do por que e, desta forma, ajudá-lo da melhor maneira possível.
–Querido, permita-me perguntar-lhe algo?
–Tudo o que desejar Carla.
–Tem certeza de que está bem?
–Te foi fácil notar que não estou não é?
–Mas, então por que aceitou sair comigo?
–Porque apesar de triste, você não imagina o bem que me trás neste momento da minha vida, a sua companhia.
–Sei que te apresentei a imagem da moça moleca, inconsequente, mas por você posso mudar, faço qualquer coisa para te ver bem. Por favor, se abra comigo. Isto poderá te trazer um pouco de sossego.
–Carla como eu gostaria! Infelizmente não posso.
Seria o homem mais feliz deste mundo se você pudesse estar de forma plena no lugar da mulher que amo, mas não posso amar.
–Como posso entender tal coisa? Por que não a pode amar?
Segurou o rosto de Carla com as duas mãos e viu quanta ternura havia nos olhos dela, respondendo-lhe com lágrimas nos seus:
–Querida, toda esta situação é muita complexa. Além de não poder te contar nada, se te explicasse você poderia supor que sou louco.
–Geany você me chamou de querida! Exclama feliz. Abrace-me forte. Vou fazer o impossível para que ao menos se sinta em paz ao meu lado.
Afirma-me não desejar de forma alguma que eu saiba quem é este seu amor, mas te suplico que me elucide; e ela te ama?
–Muito, mais do que possas imaginar.
Carla em desespero por ele se recusar terminantemente em dizê-la quem é a mulher que vive em seu coração, e notando ainda a estranheza do fato, chora angustiada e o diz aturdida:
–Não confia em mim, claro! Por favor, me leve embora daqui. Você não deve ser uma pessoa normal.
Ela levanta-se bruscamente e continua:
–Não duvido de mais nada. Talvez esse seu amor seja a sua mãe, uma de suas irmãs...
Ao ouvir isso, Geany que igualmente havia se levantado, sente um momentâneo desfalecimento e desaba pesadamente sobre o banco. Logo ao tornar à lucidez em sua mente segura a cabeça com ambas as mãos, acometido de intensa agonia.
Carla vendo a reação horrorizada dele volta rapidamente a sentar e o acolhe em seus braços.
–Não fica assim querido! Não entendo o que te assola por dentro, mas precisas de proteção. Esquece tudo o que te perguntei. Deixa-me proteger-lhe, eu posso, sou forte, acredite em mim.
Vamos andar um pouco em silêncio pelo jardim, propôs ela.
Levantaram-se, Carla circundou seu braço esquerdo na cintura de Geany e caminharam lentamente. Poucos minutos depois ela o diz:
–Estou com fome. Vamos fazer um lanche?
–Sim, vamos, respondeu ele.
Sentados, ela sorvendo seu suco com um canudinho, nota que ele parece não ter conseguido ainda se refazer do choque que levou motivado por razões que tanto gostaria de saber, e o fez um pedido aparentemente leviano:
–Vamos passar este restante do dia em algum lugar onde possamos ficar apenas nós dois?
–Por que deseja isso? Pergunta-a
–Porque não estás bem. Deixa-me cuidar de você, ao menos por hoje.
Geany nota no profundo e meigo olhar de Carla que ela inegavelmente o ama, e que suas ações agora, são algo diferente das apresentadas por ela nos dias em que passou ao seu lado, na visita que fez a sua família.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                               Décimo sexto capítulo.
                        Os dois passam a noite juntos.

Estão agora literalmente a sós em um motel e Geany, a julgar pelo que viu e sentiu de Carla, nas primeiras vezes que esteve em sua companhia, foi percebendo nela surpresas se sucedendo umas as outras.
Sentaram-se na cama e ela olhava por todo o ambiente com o semblante de muito curiosa.
–Este quarto é bonito, porém exótico. Parece muito com os que algumas amigas me contaram a seus respeitos.
–Você nunca esteve em um motel, Carla?
–Não, jamais! Sei que não acredita em mim e compreendo, pois te dei motivos para supor que estou mentindo, mas você e ninguém tem a obrigação de crer no que afirmo.
–Calma! Não precisa ficar aborrecida, fiz apenas uma pergunta.
–Tudo bem. Estou com sede, diz ela. Deve ter água naquela coisa próxima a porta que se parece com um freezer.
Foi até ele, abriu a porta e retirou uma garrafa com água. Ao olhar para uma prateleira toda decorada, ao lado e acima do freezer, viu preservativos e diversos objetos eróticos. A expressão de seu rosto e o que disse, deixou Geany apreensivo:
–Cruzes!
–O que foi Carla, viu alguma barata por ai?
–Antes fosse, respondeu ela.
–Geany levantou-se rápido e foi verificar.
–Ah, sim! Compreendo o seu espanto.
–Compreende, não é? Para você isso deve ser algo muito comum.
–O que esperava ver em lugares quais a este?
–Qualquer coisa, menos as que estão expostas.
 –Mas, você não disse que algumas amigas a relatou o que neles existem?
–Sim, mas imaginava que fossem fantasias delas.
–Então essas suas amigas tiveram fantasias coletivas?
–Sei lá Geany. Você não acha essas coisas estranhas?
–Concordo contigo, também não supunha que fosse assim.
–Como não, também nunca esteve em um motel?
–Não, esta é a primeira vez.
–Jura? Perguntou ela surpresa.
–Nunca juro nada Carla. Se a minha palavra não basta, paciência.
–Perdão, querido! Acredito em ti.
Ele levantou sua camisa e ia afrouxar o cinto da sua calça, quando ouviu Carla o perguntar:
–Você vai tirar a roupa?
–Estou apenas afrouxando o meu cinto para me sentir mais a vontade, posso?
–Mais uma vez, perdão. É que fiquei preocupada.
–Comigo ou contigo?
–Com nós dois.
–Tudo bem, pode se despreocupar.
Geany ainda pensando sobre o que Carla falou antes de deixarem o Jardim Botânico; “deixa-me proteger-lhe, eu posso, sou forte, acredite em mim” e, também sem a menor dúvida de que ela o ama verdadeiramente, levando-o a vê-la de uma forma muito diferente, se deitou e procurou relaxar. Carla igualmente deitou ao seu lado e ficaram abraçados.
Sentido as doces energias de amor e carinho que emanavam dela, refletiu profundamente: – Os processos deste estranho destino levaram a mim e a mais pessoas que tanto amo, as aflições em que estamos submersos. Parece-me, entretanto, que este mesmo destino está colocando instrumentos para aliviar, ou até nos livrar destes sofrimentos, certamente de algum modo criados por todos que estão neles envolvidos, já que me parece existirem razões para tudo o que nos acontece, de bom ou de ruim. Primeiro apareceu a Márcia e agora, de forma marcante, Carla, que conheci através do meu querido amigo Alex. O que virá adiante? Pergunta-se otimista.
Pouco mais de meia hora depois Carla o pergunta:
–Tranquilizou-se agora?
–Sim. Você não quer almoçar, já passam das treze horas?
–Estou sem fome, mas se quiser o acompanho.
–Melhor então me acompanhar, pois eu estou.
–Que bom! Se a sua fome chegou é sinal de que estás bem.
–Graças a você querida.
–Cuidado hem! Esta é a segunda vez que me chama de querida.
–Se não gosta, não chamo mais.
–Sabe que gosto Geany! Não queria apenas ouvir de ti à palavra querida, mas ser de fato a sua querida, o seu amor, enfim... Vamos almoçar?
Ao término do almoço ficaram a mesa conversando por bom tempo e antes dela saírem Carla comentou:
–Me sentiria nos céus se fosse possível estar sempre assim, juntinha de ti!
–Por falar nisso, disse Geany, já estamos aqui juntinhos há várias horas.
–Sim, há várias horas. Infelizmente elas correm e não tenho como controla-las. Prefere continuar aqui, ou sair?
–Prefiro que você decida.
–Não me peça isso Geany.
–Por quê?
–Você não é ingênuo e tão desatento, em não deduzir que por mim só iríamos embora amanhã à tarde.
–Ficarmos o restante do dia e a noite, dormimos juntos?
–Qual é o problema? Todas as noites, durmo abraçada ao meu ursinho como se ele fosse você.
–Mas, não sou seu ursinho e sim um homem de verdade.
–Estranho! Desde que te conheci sonho com este momento, e agora que ele pode se realizar, me sinto insegura.
–Com medo, quer dizer?
–Sim, com medo. Não do que possa acontecer, mas das consequências. Você percebeu, é claro, naquela ocorrência na praia, e depois nas vezes em que dançamos coladinhos, o quanto sou assanhada, e sempre fui assim, a partir dos momentos em que ia deixando a adolescência, mas nunca passou disso.
–Carla! Exclama Geany. Está me dizendo que és virgem?
–Sim, sou, mas não precisa acreditar em mim.
–Mas, é mesmo difícil de acreditar.
–Compreendo a sua reação. Nem meus irmãos acreditariam seu eu os contasse.
Se me machucar problema meu, no entanto me entregarei apenas ao homem que eu amar.
–Mas, você afirmou que me ama.
–Sim, o amo muito Geany.
–Então vai continuar virgem querida, porque penso, deve unicamente se entregar ao homem que também te ama.
–E quando isso acontecer, como terei provas de que sou realmente amada?
–Não sei Carla, não sei.
Disse isso e se calou, uma vez que ele e seu proibido amor têm provas suficientes de que se amam de fato.
Mudaram de assunto e quando a noite se aproximava fizeram uma leve refeição e, após ela, mais tarde, Carla o pergunta:
–Precisaremos tomar banho antes de dormimos. Como faremos?
–Ora Carla, que pergunta! Vá ao banheiro, tira a sua roupa e toma seu banho. Conhece alguma maneira diferente desta?
–Engraçadinho! E depois do banho vou vestir o que, a roupa que vim?
–Você quem sugeriu a nossa vinda e permanência aqui, não foi? Então temos duas alternativas: irmos embora ou após os banhos, toalhas substituirão nossas roupas até à tarde de amanhã, quando sairemos daqui. O que decide?
–Para ficar aqui contigo faço qualquer coisa. Uso toalhas, lençol...
–Isso. Problema resolvido, certo?
–Certíssimo!
        
=============ESTRANHO DESTINO=============

                                       Décimo sétimo capítulo.

As horas passam e Geany nem Carla conseguem dormir. É para ambos uma situação inesperada em suas vidas.
Abraçada a ele e com seus rostos muito próximos, ela o diz:
–Seria muito feliz se fosse amada por você.
Olhando nos olhos um do outro trocam ternos beijos e eles estimulam carícias, e elas por suas vezes, os levam nas condições em que encontram; aos inevitáveis relacionamentos íntimos.
Retiram as toalhas que os encobrem, perdendo por completo ambos, movidos por intensos carinhos e desejos, a noção do certo e do errado, do que se pode ou não fazer.
Estão a um passo de descobertas que terão para os dois, consequências por eles não imaginadas.
Durante o calor das trocas de afagos aconteceu à realização da cópula e logo no seu início, Carla têm reações que deixaram Geany, pela sua falta de experiência, preocupado.
Na consumação da sua primeira vez ela o abraça forte, chorando e emitindo sons, para Geany, indefinidos; quais a prazer e dor simultaneamente. Ele comenta e a pergunta:
–Tem algo de errado querida, quer que paremos?
Ainda chorando, agora baixinho, o responde:
–Não querido, por favor, não. Sonhei tanto com isso...
Com tudo acomodado, após significantes momentos de amor e prazer param exaustos e, ainda abraçados, Geany sente líquidos mornos na sua coxa e quando vê, fica assustado.
–Carla, você está sangrando muito!
–Bem que no início estava sentindo muita dor e ardência, mas logo diminuíram bastante. E agora o que faremos?
–Primeiro vamos tentar conter o sangramento, se não conseguirmos será constrangedor, porém precisaremos de ajuda.
Para seus alívios logo ele cessou quase que por completo.
–Fique bem quieta por algum tempo para observarmos se tudo ficou realmente como esperamos.
Ficaram deitados, de frente um para o outro e Geany sente-se surpreso. Deveria, segundo imaginava, sentir arrependimento por trair o seu amor, mas via agora Carla com imensa ternura.
Momentos depois ela disse que ia se lavar, com a principal intenção de saber se estava de fato tudo bem.
Logo volta sorridente e feliz.
–Que bom querido! Parece que não houve maiores implicações. No contato com a água e sabonete voltou um pouquinho, também o ardor permanece, porém creio que logo se normalizará.
–Me deixa ver, disse ele. Preciso ter certeza.
–Não vai ver nada.
–Mas, por que Carla?
–Estou com vergonha, apenas isso.
–Mas, vou ver assim mesmo. Quero me tranquilizar de verdade.
Geany a examinou detidamente e disse:
–De fato. Parece que está se encaminhando para ficar tudo bem mesmo.
–Deve ter visto muitas, né?
–Da forma que vi em você foi à primeira vez.
–Só falta me dizer que também foi a sua primeira vez.
–Mas, foi, e dai?
Ela o abraça forte, radiante de felicidade.
–Meu amor, depois do que aconteceu e ouvindo o que me disse, sou agora a mulher mais feliz do mundo!
Você pode nunca mais me querer, mas vou me sentir para sempre a tua mulher.
Ih Geany! Esqueci-me de avisar em casa que não voltarei hoje.
Vou ligar para o Alex e pedi-lo que contorne as coisas por mim.
–Vai dizer a ele que está comigo em um motel?
–Vou, por quê?
–Quando terminar me deixe falar com ele.
Ela terminado passa o celular para Geany.
–Oi Alex, boa noite!
–Boa noite! E ai, estão se divertindo muito? Cuidado hem, com a minha irmã vai ter que casar!
–Alex, sabe...
–Estou brincando cara! Espero que nesta noite vocês se entendam de verdade.
–Também quero te dizer uma coisa.
–Pois não, diga.
–Coloca na sua agenda o número do meu celular, ao lado do meu nome e não ao lado de amor, pois alguns curiosos, em nova distração sua, podem discar para o seu amor e você acabar pagando um mico. De qualquer forma te agradeço muito pelo zelo meu amigo.
–Sabia que essas meninas tinham fuçado o meu aparelho. Nunca o vi tão limpinho, cheiroso e com a bateria completamente carregada, bem que estranhei. Mas, deixa comigo amigão. Uma noite feliz para os dois.
Ao se despedir do amigo, diz a Carla:
–Também vou ligar para casa e fazer algo que não gosto, mentir. Vou dizer que estou com o seu irmão.
–Não será tão mentira assim. Está com a irmã dele.
–Somos dois loucos, sabia?
–Falando por mim, sou uma louca, mas agora muito feliz.
Tenha a certeza absoluta de uma coisa, Geany: fizemos o que não devíamos, e de maneira imprudente. Tenho vinte anos e, apesar de não precisar, trabalho e me sinto dona da minha vida. Se algo acontecer à responsabilidade será toda minha. Em hipótese alguma vou te envolver em problemas, sejam eles quais forem.
–E supõe que eu concordaria com isso?
–Não suponho nada, apenas em nenhuma situação vou aceitar me casar contigo sem que me ame.
Geany enlaçou Carla em seus braços e a disse, deixando-a ainda mais intrigada:
–A cada dia que passa, vejo esta vida mais estranha, sabia? Nunca imaginei me casar, e agora esta possibilidade existe.
–Não vou te perguntar mais os porquês de nada, a menos que haja circunstâncias favoráveis a isso. Por mim jamais o verei novamente como você estava antes de virmos para cá.
Se tiver que ser meu será, caso contrário, vou viver o restante da minha vida, só.
–Não diga isso Carla! Você é uma mulher linda e tão jovem.
–Com exceção do que aconteceu e do meu amor, não me conhece em quase nada Geany.
–Tudo bem querida. Façamos o seguinte: vamos viver um dia de cada vez, e deixar que a vida se encarregue do amanhã.
–Sábias palavras. Vamos ao menos tentar que assim seja.
Aquela noite passou e se aproximava a do dia seguinte.
–Que pena querido! Temos que voltar a rotina e cada um, viver a sua vida.
=============ESTRANHO DESTINO=============


Carla deixou Geany em casa e aparentemente ninguém da sua família o viu descer do carro dela, como também o ardente beijo de despedida.
Chegando Jane o saúda e pergunta:
–Olá meu filho, distraiu-se bastante?
–Muito, mãe! Precisava me divertir um pouco, respondeu sem conseguir olhar para Thais que o observava discretamente.
Vou tomar um banho e já venho jantar.
Após ele foi para o seu quarto e evitou o máximo possível conversas com as suas irmãs.
No dia seguinte recebe uma ligação de Márcia, lembrando-o da segunda reunião marcada para a quarta-feira, no centro, desejando saber se ele, Lenita e Thais iriam mesmo ou não.
–Não estou em casa no momento Márcia, mas lá chegando, as lembrarei da reunião e retorno a ligação, certo? Tudo o que aconteceu naquela noite foi muito marcante para nós e havíamos concordado, não apenas comparecermos a segunda reunião, como também a algumas outras que ocorrem durante as semanas.
–Que bom amigo! Os aguardaremos então.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                               Décimo nono capítulo.
          
Quarta-feira à noite no centro. Os irmãos Geany, Thais e Lenita, mais a amiga Márcia e os médiuns, Júlio e Valter, encontram-se pela segunda vez, reunidos para se for possível nesta, chegarem às conclusões finais, acerca dos laços que mantiveram nas suas derradeiras existências. Se tudo transcorrer qual na última, o véu que ainda encobre os processos que os trouxeram a uma mesma família será descerrado, havendo assim a possibilidade de serem reparados e, de forma definitiva, os desvios cometidos em ambas, anteriores a atual.
Da mesma forma que na outra reunião, após a prece, todos os presentes de mãos dadas, pois ficou esclarecido o envolvimento de Márcia com os três irmãos, se mantêm em silêncio por alguns minutos. Logo ambos os médiuns entram em estado contemplativo e são auxiliados por dois sublimes espíritos.
Aparentemente é Valter quem inicia a longa e muito detalhada narrativa das visões de fatos acontecidos em meados do ano de 1890.
–Vocês, referem-se à Geany, Thais e Lenita; se reencontraram uma década anterior ao ano 1900.
Geany, um jovem médico, na época com o nome de Sandro, embora não fosse casado legalmente, mantinha união estável com a também jovem enfermeira Flávia, no presente a Thais, e ambos trabalhavam juntos em um hospital que mantinha suas atividades em condições precárias, por causas diversas.
Flávia durante o trabalho usava um longo vestido branco com mangas compridas e um capuz na cabeça. Era desde menina, Católica fervorosa e por pouco, quando jovem, antes de ser enfermeira, não se tornou Freira. Seus trajes quando em serviço se pareciam muito com os delas, sendo mínimas as diferenças em todos os aspectos. Com o seu corpo quase que completamente coberto por eles, ao lado de seu amor, sentia-se uma serva de Deus. Estas vestimentas, de certa forma, faziam-na diferente das vezes que utilizava outras roupas, enquanto fora das suas ocupações profissionais, principalmente porque soltava seus longos cabelos negros.
Sandro e Flávia permaneciam por considerável tempo, muito atarefados, pois havia acentuada carência dos elementos mais básicos no hospital onde exerciam suas funções, especialmente médicos, enfermeiras experientes e demais profissionais na área de saúde.
Além das atividades que lhes eram pertinentes e que desempenhavam com extremado zelo, eventualmente continuavam a disposição, para cumprirem plantões de outros funcionários que faltavam ao trabalho, e tinham cargos compatíveis aos seus.
Moravam em um modesto sobrado que existia numa vila semelhante a muitas outras da época, e seus acessos eram ruas muito estreitas e sinuosas.
Flávia e Sandro conheceram-se no trabalho e logo perceberam o quanto lhes era prazerosa as presenças um do outro sem causas aparentes. Pouco tempo depois este prazer foi se transformando em um amor intenso, que na verdade existia latente em seus interiores.
Paralelo as suas vidas seguia Valéria, a atual Lenita, casada há seis anos e vivendo até então, o desespero de não ter tido filhos, o seu grande sonho.
Culpava seu marido por após inúmeras tentativas não conseguir engravidar.
Já Sandro e Flávia mantinham sempre, durante seus momentos de prazeres, proporcionados pelos relacionamentos íntimos, todo o cuidado possível, pois nas circunstâncias em que viviam criarem um filho ou uma filha representaria para ambos, responsabilidades difíceis de serem superadas. Se acontecesse o que não desejavam, naquelas condições desfavoráveis, teriam de enfrentar a situação.
A despeito de que Sandro possuísse “grande autocontrole”, e praticassem de forma perfeita o coito interrompido, um dos mais antigos meios contraceptivos, já que não existiam os métodos modernos e, ainda, se cercassem de outras necessárias precauções, ele, como médico, mesmo sem os conhecimentos atuais, não acreditava que havia segurança absoluta neste costume. Embora nele, haja bom tempo que se sabe de as probabilidades de fecundação ser de fato muito pequenas, mas possível, tanto que Flávia engravidou.
Enquanto lhe foi possível continuou seu trabalho ao lado do amor de sua vida. Depois de certo estágio da sua condição de gestante precisou se licenciar a fim de poder cuidar-se prudentemente. Para Sandro, o mais dedicado de todos os médicos, em todos os aspectos, não lhe foi difícil, junto ao diretor do hospital, conseguir a dispensa de Flávia pelo tempo que se fizesse necessário.
No avançar dele nasceu à filha que passou a ser a maior alegria de suas vidas.
O casal deu-a o nome de Sabina, simplesmente a nossa irmã Márcia que, pela segunda vez, encontrou-se pelos processos do destino, envolvida entre os então três irmãos. Na primeira foi à menina Inês.
Sabina aos seis meses de idade estava, segundo o parecer de Flávia, em condições de ser cuidada por uma babá.
Procurou por alguns dias alguém que lhe parecesse de confiança, no trato da sua filhinha.
Surgiu então novamente, pelos desígnios da Vida, Valéria, que a primeira vista se lhe afigurou a pessoa ideal para cuidar de Sabina.
Ela ao se aproximar e ver a menina esforçou-se muito para conter a emoção que brotou de sua Alma. Também se sentiu atônita quando mais tarde esteve diante de Sandro. Ficou pálida e abaixou a cabeça, porém desta vez Flávia percebeu e a perguntou:
–Aconteceu algo Valéria? Você não me parece bem!
–Já passou senhora. Fiquei muito comovida ao ver os três juntos. Formam uma família como sempre sonhei na minha vida.
–Mas você me disse que tem uma família?
–Sim, tenho, mas meu marido já foi casado e os filhos que criamos foram concebidos pela sua falecida esposa.
–E não ama estes filhos dele?
–Amo, porém nunca serão como se fossem meus de verdade, qual é esse anjinho lindo de vocês!
Sandro e Flávia se entreolharam, contudo entenderam serem coisas da vida e não haveria problema algum para eles, esse detalhe.
O que na verdade aconteceu com Valéria foi uma profunda, íntima e inexplicável confusão de sentimentos.
–Meu Deus! Por que estou amando tanto essa criança e uma impressionante sensação de que o doutor Sandro me é adoravelmente muito familiar? Como gostaria de estar no lugar da senhora Flávia!
==========================================
Flávia sempre que retornava do trabalho sentia-se surpresa com a extrema eficiência e dedicação de Valéria.
No passar das semanas começou a notar que Valéria cuidava de Sabina como se ela fosse sua própria filha e que a menina, igualmente, a ela se apegava, a ponto de causar-lhe ciúmes da sua babá. Quando eventualmente a criança adoecia, ela não ia para a sua casa na hora combinada, que era o retorno ao lar de Sandro ou dela. Passava até quando julgava necessário, noites acordada cuidando da pequena Sabina. O pagamento pelos serviços prestados sugeria-lhe um mero pormenor.
Estes detalhes eram por demais óbvios, e não passavam despercebidos também por Sandro.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                                   Vigésimo capítulo.

A noite de certo dia chegam juntos em casa exaustos do trabalho, Sandro e Flávia. De imediato estranharam as ausências de Valéria e Sabina, que há algumas semanas completara nove meses de vida.
Procuram-nas pela casa e arredores e não as encontraram. Sabina poderia ter sido acometida por alguma enfermidade, e Valeria procurado socorro onde o pudesse encontrar.
Perguntaram a alguns vizinhos próximos se a babá de sua filha havia deixado algum recado, e todos afirmaram que não, porém um deles que chegava a casa, voltando de uma viagem, disse-os que viram ambas distantes dali, e a bebê parecia estar muito bem.
A aflição se apossou do casal. As horas passavam e suplicaram a Deus para que esta ocorrência não fosse o que eles imaginavam; Valéria ter sequestrado Sabina.
Foi exatamente isso que aconteceu, para o desespero deles.
Dirigiram-se as autoridades locais e tiveram como lenitivos, a promessa de que tudo fariam para encontrar a filhinha amada deles.
Deixaram para trás o trabalho e seus demais afazeres, procurando-as por todos os lugares possíveis, mas sem êxito.
Uma semana após este acontecimento, à noite, ouvem alguém os chamar a porta. Sandro foi atender e um homem que se dizia chamar Filippo, apresentando-se como marido de Valéria, o pergunta se sabe do paradeiro de sua mulher. É convidado a entrar e percebem que ele igualmente está muito preocupado com o sumiço da sua esposa.
Fica sabendo de todos os pormenores acontecidos e lembrados pelo casal, através de narrativas detalhadas, desde o primeiro dia em que Valéria passou a trabalhar para eles, ao sequestro de sua filha.
–Ela, contou a sua história o marido de Valéria: logo no início do nosso casamento desejava ardentemente ser mãe, entretanto chorava muito sempre que entrava “naqueles dias”.
Culpava-me por não conseguir engravidar, mas, apesar de leigo nesta questão, entendo que não sou responsável por não satisfazer o sonho dela, que era igualmente o meu, visto ser este o segundo casamento que tive, e a minha falecida esposa me deu dois lindos meninos que vivem comigo, e da mesma forma conviviam com ela, enquanto conosco estava. Também sempre estranhei, embora não a perguntasse, o que ela fazia com o dinheiro que ganhava em seu trabalho.
–Mas, nós a remunerávamos bem mais do que normalmente recebem as pessoas que exercem funções semelhantes, explicou-o Flávia.
–Então parece estar explicado o que ela planejava fazer com o salário que recebia, comentou amargurado Filippo e os perguntou: – os senhores nunca suspeitaram de nada?
–No sentido do risco de acontecer o que aconteceu, não, disse Sandro, porém a dedicação dela com nossa filha era muitíssima estranha, além de Valéria ter contado a nós semelhante história de suas vidas que o senhor. Também ela nos apresentou, durante a sua permanência aqui, outros incomuns detalhes que não demos a devida importância a eles.
–No meu entender essas ocorrências foram suficientes para que ambos a despedisse, mas se não tomaram esta decisão foi porque, creio, que isto deveria mesmo acontecer, asseverou o marido de Valéria.
–Qual a razão de o senhor nos afirmar isso? Perguntou Sandro, aborrecido.
–Compreendo a sua revolta, doutor, mas esta vida nos trás, sugerindo até como “fatalidades”, muitas surpresas, boas e más e não temos como evitá-las. Parece que para nós, as más superaram em muito, as boas.
Quando conheci a minha esposa, mãe dos meus filhos, passamos a nos amar intensamente e foram muitos os planos que fizemos juntos para o futuro. Ela era muito jovem e extremamente carinhosa. Tínhamos tudo para sermos felizes por todas as nossas vidas, no entanto, quando nosso segundo filho fez cinco anos, estávamos passeando os quatro e ela tropeçou em uma dessas pedras que calçam de forma irregular as ruas e, caindo, bateu violentamente com a cabeça em outra pedra, morrendo nos meus braços, levando a mim e meus filhos, ao desespero.
Foram mais de dois anos de uma vida sem rumo e de intensa pobreza, pois quase não trabalhava, até que conheci a Valéria.
Não sei se por compaixão, ou se gostou mesmo de mim, ela ajudou-me muito a me reerguer. Foi, por algum tempo, o custeio da casa. Revelou-se uma mulher de fibra e apareceu na minha vida como um socorro que eu e meus filhos necessitávamos.
Voltei a trabalhar e, de certa forma, senti vontade de continuar vivendo e inclusive de sonhar a ter de volta a felicidade.
Tudo começou a desmoronar quando ela, pouco mais de um ano depois, percebeu que não conseguia lhe dar um filho. Tentei de todas as formas fazê-la se conscientizar de que tínhamos dois filhos, e que eles poderiam ser amados por nós como se fossem meus e dela também, de verdade. Valéria não se conformava e me disse:
–Amo seus filhos! Você sabe o quanto lhes dou carinho e amor, mas preciso muito de uma menininha minha, só minha. Sonho com isto desde a minha adolescência!
–Ela estava sendo sincera. Meus meninos faziam mesmo parte da vida dela, porém me dava a entender, como uma ideia fixa, que vivia uma busca desesperada, já que falava muito em uma menininha, qual outra menininha que perdera a sua boneca querida.
Começou então a faltar muito ao trabalho e acabou sendo despedida. Como eu ganhava pouco, nossas vidas voltaram a ser difícil, não, porém, como vivíamos sem ela. Tudo se complicou ainda mais quando Valéria começou a trabalhar para os senhores.
Algumas vezes não retornava a casa e quando vinha, já acordava muito cedo, ansiosa para voltar a sua ocupação de babá, sem ao menos deixar pronto o café e saia mesmo em jejum absoluto.
Sabe senhor Sandro e senhora Flávia, continuava Filippo: – sinto como que algo parece ter o poder de dirigir nossas vidas. Acredito em Deus, acima de tudo, mas porque estas coisas acontecem conosco? Foi por isso que lhes disse que “aconteceu porque tinha mesmo que acontecer”, pois não encontro outra explicação! Como, por que e para que sofremos tanto, ao menos nossas famílias?
Sim. Este Algo á a Lei de causa e efeito.
Ela não é boa e nem má. Simplesmente o que criamos para nós mesmos por meio dos nossos pensamentos e ações. Ela é o caminho que construímos para serem percorridos pelos nossos passos, é o destino traçado por nós, o remédio amargo que curará todas as dores e aflições.
Igualmente muito triste Filippo se despediu de Sandro e Flávia.
–Que homem estranho! Comentou Flávia. Pareceu-nos uma pessoa inculta, tão simples, no entanto o que disse parece ser motivo para muitas reflexões nossas. Também, apesar de ser um grande mistério, é possível vislumbrar agora, o porquê de Valéria ter sequestrado Sabina.
Fora uma perda irreparável para o sofrido casal, contudo a vida precisava continuar. Pouco menos de um ano depois Flávia e Sandro fizeram de tudo possível para terem outro filho, certamente com o intuito de amenizar a perda da filha querida, todavia os anos se passavam e ela nunca mais conseguiu engravidar, sem que descobrissem a razão disso.
 Os anos se sucediam e, no decorrer de muitos deles, uma ocorrência inacreditável surgiu em suas vidas.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                           Vigésimo primeiro capítulo.

Dezesseis anos depois desta tragédia mais uma vez o “destino”, por meio de seus processos, determina um evento extraordinário nas vidas de Sandro e Flávia.
Sandro que adquiriu com o passar de considerável tempo, mediante os muitos estudos e prática, notável conhecimento em doenças renais, fora pelo seu chefe convidado a atender uma paciente internada em um hospital distante dali. A doença que a acometia, um gravíssimo problema renal, necessitava de atenções especiais, que evadia as capacidades de seus colegas do hospital onde iria atuar, nesta específica situação.
Atendeu a solicitação de seu diretor colocando-se a disposição, porém o disse, e todos naquele hospital sabiam que a eficiência dele dependia, e muito, da presença da sua companheira, que também reconheciam ser exímia enfermeira, quase uma médica.
Logo após o almoço partiram para lá, levando com eles uma carta de apresentação emitida pelo responsável do hospital onde trabalhavam.
Chegando ao destino, Sandro e Flávia foram recebidos pelo médico, que também executava a função de secretário do diretor, e a ele entregou a carta.
Inteiraram-se dos fatos e o secretário os sugeriu descansarem um pouco, pois a viagem foi cansativa, antes de verem a paciente, mas eles preferiram atuar de imediato, ficando o secretário impressionado com o poder de decisão apresentado por Flávia, já que pareciam dois médicos, e não um médico acompanhado da enfermeira que o iria auxiliar. Na verdade Flávia estudava muito com seu marido e com ele aprendeu na teoria e na prática, fundamentos relevantes da Medicina ficando assim, em um nível muitíssimo superior aos conhecimentos profissionais de enfermeiros, nos tempos em que a arte de salvar e manter vidas já vislumbrava os progressos futuros, entretanto não tão extraordinários quanto aos hoje a presentados e continuará a evoluir, na medida dos surgimentos de novas descobertas, técnicas mais aprimoradas, da evolução de outras ciências e, sobretudo, quando os homens se conscientizarem, verdadeiramente, de que o corpo humano não é exatamente o que eles imaginam ser.
========================================
Já havia naquela época, em comparação com os dias presentes, instrumentos para exames laboratoriais rudimentares, como igualmente, carência de bons técnicos capazes de interpretarem, da forma mais correta possível, os materiais examinados.
Também existiam os microscópios adequados a auxiliar, e muito, nas investigações de elementos que poderiam levar pacientes a várias enfermidades, porém poucos hospitais o possuíam, além do que sempre foram necessários profissionais capacitados e com muita prática, semelhantes aos médicos patologistas, que há muitas décadas vem se aperfeiçoando cada vez mais, bem como seus instrumentos de pesquisas, auxiliados que foram, pelo colossal avanço da eletrônica e de outros conhecimentos, nas construções dos extraordinários microscópios que hoje existem.
Se com todos os progressos obtidos no decorrer do tempo, hospitais da atualidade, em grande parte do mundo passam por enormes dificuldades, devido a causas distintas, não é difícil de concluir que naqueles tempos as coisas eram ainda piores.
Os profissionais nas áreas da saúde trabalhavam de acordo com as limitações a eles impostas em todos os sentidos, e para Sandro não poderia ser diferente.
Recebeu o prontuário da enferma com o nome de Catarina Eveline Rossi e foi conduzido, com Flávia sempre a seu lado, ao leito onde ela se encontrava.

=============ESTRANHO DESTINO=============

                            Vigésimo segundo capítulo.
         
Ao lado dela sentada em uma cadeira estava, aparentando desespero, uma jovem de dezesseis anos e seu nome era Cecília Eveline Rossi. Ao verem a moça Sandro e Flávia tiveram semelhantes reações. Ele pensou pasmo:
–Que consciência admirável!  Essa moça é idêntica a Flávia! Já Flávia sentiu-se como se estivesse voltando ao passado e também pensou, perplexa:
–Meu Deus quem é essa jovem? Nunca vi alguém tão igual a mim! Então fui muito bela e jamais prestei atenção neste detalhe, pois “Cecilia” é linda!
Sim, as surpresas foram de fato incríveis, todavia a angustiante viria de imediato. Ao observarem à enferma que, devido ao seu deplorável estado e sedada por drogas, encontrava-se inconsciente, Sandro conseguiu controlar-se, mas Flávia gritou angustiada, sendo amparada por dois médicos que os acompanhavam.
“Cecília” assustada nada entendeu. Sandro mais os dois médicos saíram do local levando Flávia, para ser examinada, visto que ela estremecia de forma incontrolável.
Deitaram-na em um leito que estava vago, distante do ocupado pela “Catarina”.
Um dos médicos ia acudir Flávia quando Sandro o disse:
–Por favor, aguardem um instante.
Abraçou sua companheira pedindo-lhe que se acalmasse.
–É a Valéria querido, disse com dificuldade e grande descontrole, movida pelo brutal e inesperado choque emotivo.
–Sim, é a Valéria, meu amor, e a jovem é a nossa filha, por ela de nós tirada, não tenho a menor dúvida disso.
Não esqueça minha vida: enfrentamos juntos inúmeras desgraças de semelhantes nossos, mas nos é imperioso sermos fortes para desta vez enfrentamos a nossa e, igualmente, a dela.
Deus deu-nos forças para continuarmos vivendo, e ampararmos aos necessitados que por Ele foram a nós entregues.
Abraçada a Sandro Flávia foi aos poucos se acalmando e os dois médicos, embaraçados, sem nada entenderem acerca do ocorrido.
Ainda enlaçado ao seu amor pediu a ambos que se aproximassem e a eles narrou rapidamente, o porquê das reações dele e da sua mulher.
Entreolham-se com os semblantes de incrédulos e um deles disse ao casal:
–Nossos queridos amigos, sentimos muito por tudo que passaram. As chances de sobrevida da paciente agora são remotas, visto que vocês não têm a menor condição psicológica dela cuidar.
–Estamos muito abalados sim, mas vamos efetivar a razão da nossa vinda aqui, afirmou Sandro.
Abraçou Flávia com imensa ternura e a disse resoluto:
–Vamos trabalhar?
–Sim querido, vamos.
Dirigiram-se ao leito de “Catarina” e “Cecilia” suplicou a Sandro:
–Por Deus, doutor, salve a minha mãe!
Sandro possuído de muito carinho a falou:
–Se for dos desígnios d’Ele ela será salva, minha filha querida.
Ao ouvir essas palavras Flávia abraçou “Cecilia”, a seguir segurou seu rosto com ambas às mãos e a disse, com lágrimas nos olhos:
–Nós te amamos muito “Cecilia”, muito! Faremos todo o possível para que a “sua mãe” sobreviva.
“Cecilia” não conseguia entender a demonstração de tamanho afeto de Sandro e Flávia por ela, bem como o meigo sentimento interior de que os conhecia de algum lugar. O que mais a deixou, confusa, no entanto, foi o porquê de Flávia sentir o que sentiu ao ver a sua “mãe”. Não fora um mal súbito qualquer, percebeu isto, pois havia pavor na expressão de seu rosto, e sim algo de caráter emocional muito profundo.
Sandro iniciava os preparativos para atender “Catarina”. Com ela inconsciente deveria se basear nas anotações feitas em seu prontuário, que eram longas e apresentava-lhe um quadro desesperador, e em relatos de seus colegas.
Dera entrada em situação de urgência. Segundo narrativas da sua “filha”, há várias semanas veio perdendo peso, pois se alimentava muito mal devido à falta de apetite e vômitos. Dias antes de ser trazida ao hospital sentia dores terríveis, que se intensificaram em todos os que passavam. Muito febril, também excretava sangue misturado à urina. 
Apresentava, nas primeiras verificações dos médicos que a atendeu, febre, fortes evidências de acentuada anemia, de infecção e, apesar do desconhecimento de algumas doenças do fígado, que pode inclusive causar sérias complicações renais, sabiam que ela padecia de significativas alterações nas funções hepáticas.
Uma equipe de médicos fora constituída, na tentativa de chegarem a um diagnóstico mais preciso possível sobre a origem de tais sintomas. Embora a Medicina rudimentar, em relação à praticada nos tempos modernos, concluiu-se, após uma série de exames e pareceres, que alguma alteração muito grave no rim direito, possivelmente a existência de um tumor com dimensões alarmantes, poderia ser a causa de todos os problemas apresentados. As evidências eram notáveis, bem como a urgência na sua remoção, e as chances da paciente resistir à intervenção cirúrgica, devido ao seu estado clínico, severas limitações técnicas, outras diversas, sobretudo, a complexidade do procedimento para a época, eram praticamente nulas.
Ao término de ler atentamente as anotações, conversar com seus colegas, e meditando profundamente sobre tudo o que aconteceu até aquele momento, ficou certo de que ele e sua esposa não foram chamados e estavam ali por mera causalidade.
Decidiu com ela a seu lado, como sempre esteve, enfrentar este desafio e clamou a Deus que o orientasse em todas as suas ações, como igualmente pelo milagre da paciente continuar vivendo de forma normal.
Para o Pai nada é impossível, pois sabia perfeitamente, por meio de observações que fazia ao longo da sua carreira, que a retirada de um tumor em qualquer órgão, mesmo com sucesso absoluto e, no caso específico de “Catarina”, ela resistisse à intervenção cirúrgica, conseguindo ainda se recuperar “totalmente”, sem os conhecimentos atuais acerca deles, e as adequadas terapias, se necessário fosse, não teria garantia alguma de que em breve, consequências não levassem ao óbito a sua paciente. Isto, entretanto, apenas se sucederia se fosse pelos desígnios de Deus.
Deus, entretanto, apenas usa os instrumentos a eles adequados. Sandro, um incansável pesquisador e observador por excelência sabia, assim como muitos profissionais de saúde, dos elevados perigos que representavam os micro-organismos.
 Após os dez anos de trabalho e muito conceito entre os diretores e colegas, tido por todos como um profissional exemplar e altamente qualificado, foi aos poucos conscientizando seu chefe, da fundamental importância das práticas que desejava realizar.
A despeito de hospitais em partes do mundo já usarem luvas, máscaras, aventais e gorros cirúrgicos, além da devida assepsia em todas as instalações hospitalares, sobretudo nos locais de cirurgias, muitos administradores de estabelecimentos de saúde relutavam na consecução destes hábitos, alguns com o pretexto principal de cortarem gastos.
Estes procedimentos, mormente nas cirurgias, que vieram gradativamente sendo aperfeiçoados e reduzindo drasticamente as perdas de pacientes em função das contaminações adquiridas dos próprios médicos, como igualmente os médicos se infectavam, era o que Sandro desejava evitar. Deixara claro que se sua petição não fosse atendida, não mais ali trabalharia. Paulatinamente percebeu o esforço que estava sendo empregado para atendê-lo, ficando muito feliz em poder trabalhar com a maior segurança possível, abrindo mão apenas e, por algum tempo, dos usos de luvas, que estavam sendo fabricadas de maneira mais adequada, inclusive interferindo menos nas sensibilidades dos toques, mas as mãos deveriam ser rigorosamente limpas.

=============ESTRANHO DESTINO=============

 Continua no menu: Estranho Destino-Livro Completo, (Terceira Parte).


     

Nenhum comentário:

Postar um comentário